Medo patológicoFolhas. Plantas. Árvores. Uma espessa cortina de verdura. O que se encontra para além dos seres vivos que a câmara apreende? Uma brisa açoita-os levemente. Será desta forma que consigo observar algo para além da folhagem? Não. Nada. Avançamos lentamente. Escuta-se a respiração atenta de uma plateia expectante. Subitamente, irrompe um animal pela verdura. Os ritmos frenéticos de uma caça bem coreografada arrancam com a acção do filme e o público segue atentamente a correria que se alastra pela tela. Aborrecido… patético! Clamam alguns. Empolgante… belo! Aclamam uns quantos. Quantos terão permanecido na contemplação da
folhagem enquanto a maioria perscrutava a acção? Quantos persistiram na tentativa de vislumbrar o que existia para além da
verdura do plano inicial? Quantos não foram distraídos pelo ímpeto do animal em fuga? Quantos apreenderam a ironia mordaz do seu final? Quantos verificaram a densidade da ramagem temática adelgaçando gradualmente e provocando um interessantíssimo choque entre as reflexões da filmografia de um realizador soberbo?
Sim. Mel Gibson é soberbo atrás das câmaras. Bastante louco, algo incompreendido, mas avassaladoramente soberbo. Ele sabe contar uma história como poucos, elevar a pulsação durante o relato e transportar a maioria da audiência. Quando uma narrativa (maioritariamente) visual atinge estes píncaros, torna-se complicado redigir emoções. Mesmo as piadas que derrama funcionam como factor para humanizar as personagens, estabelecendo uma aura universal, íntima, relaxada e confidente. Gibson evita o tratamento estereotipado das culturas ancestrais: demasiado sóbrias, macambúzias e sisudas. “
Apocalypto” é uma experiência visceral que chispa com uma beleza cristalina, inclusivamente espelhada na pureza do formato da sua narrativa de três actos. Assente na época da civilização Maia, a película providencia uma expedição numa paragem pouco explorada na Sétima Arte. Exótico, selvagem e feroz, o filme sucede de forma pujante na concepção de uma civilização em declínio e na recreação detalhada de uma sociedade conhecida maioritariamente através de ruínas. Como elemento de uma equipa de produção valorosa, Dean Semler utiliza a alta definição do sistema da nova câmara
Genesis para capturar de forma vívida a beleza da cidade Maia e o realismo orgânico da selva, acentuando respectivos perigos. É um festim visual idílico com texturas de pele à mistura, para fortificar o singular estudo da carne de Gibson.

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Apocalypto” transporta. É uma viagem envolvente, perturbadora, selvaticamente bela, com tensão genuína e estética visual distinta. Cada fotograma é tão simbólico, luxuriante, demandando vigilância constante, que se torna hipnótico. Com nuances de desespero e desorientação que uma idónea câmara lenta apreende, Gibson acena alegoricamente às complexas teias políticas contemporâneas. O sangue e a brutalidade são abundantes, mas nunca se encontram deslocados com o material. Não existe sensibilidade numa deflagração de violência extrema. Quanto mais profundas as chagas, mais pressão terá de ser exercida na ferida. A manifestação de selvajaria filmada por Gibson é primária, urgente, essencial, em perfeita sintonia com a desintegração de uma civilização e com a demanda pela sobrevivência. Não se trata de um mecanismo visceral para provocar reacções básicas. Isto é realização ao mais alto nível. “
Apocalypto” é um raro filme de época envolvendo nativos, efectivamente narrado sob uma perspectiva indígena. Gibson evita impor um ponto de vista americanizado, com língua inglesa à mistura. A sua analogia é global e a citação inicial do historiador filósofo Will Durant avança questões profundas sobre os ciclos das civilizações. Mais do que uma reflexão no carácter auto-destrutivo do Homem, o
espectáculo do sacrifício humano num peculiar centro urbano é uma metáfora portentosa. A aparição de indivíduos de terras distantes, que forçam credos numa atitude de prepotência. O sacrifício humano ao longo da história é um facto e nos dias correntes, hordas de soldados são ofertados aos deuses da guerra. No seu quarto filme até à data (como realizador), Mel Gibson continua o seu estudo da mortificação da carne ao longo dos diferentes períodos da Humanidade. Ele coloca o Homem em conflito com Deus, com a sociedade e consigo próprio, de forma perfeitamente assimilada por um elevado número de seres... mesmo que os diálogos sejam em linguagem
Yucatec. Ao longo da expiação espiritual via flagelo corporal, Gibson debate-se com diversas temáticas, intersectando-as ao longo da sua filmografia. Qual o papel paterno na edificação do filho-homem? Em que diferem as cenas de execução pública que seus filmes ostentam? Qual o significado da reprodução do azul de chacina (“
Braveheart”) e das mensagens divinas (“
The Passion of the Christ”)? Como é que seus filmes apresentam a crença religiosa? Como elemento fanático, institucional ou enraizado? Quais os pontos de convergência nesta colisão temática?
O filme é assombrosamente cinético (na verdadeira acepção da palavra). O seu ritmo enceta de forma veloz e gradualmente eleva a tensão através da narrativa. Existe um movimento constante que assevera uma forma de lidar com uma das suas vertentes temáticas: o
Medo. O medo paralisa, inibe. O medo é uma interrupção abrupta do processo de racionalização e de todos os processos de motivação. Quando o ser humano fica inconsciente pelo medo e deseja escapar ao mesmo, o seu
instinto de sobrevivência destoa. Se reflectirmos convenientemente, a maior percentagem de acidentes e mesmo sinistralidade resulta da conduta que temos perante o medo. Mas não será este o resultado de uma cultura que não só não nos preparou para enfrentar o medo, como também nos educou a temê-lo? Numa palavra:
Manipulação. O medo está na raiz de todas as formas de exclusão, assim como a confiança está na raiz de todas as formas de inclusão. Ao longo dos tempos, toda a sociedade foi gerando os seus pólos de exclusão. O medo é empregue para escravizar, subjugar e dominar o povo. O medo imobiliza. E é nesta realidade que Gibson cogita e propõe movimento. Não fiquemos imóveis. Em vez de presa, sejamos o caçador. Observemos o seu movimento, as suas artimanhas e aniquilemos o seu elemento perverso. Em “
Apocalypto” a única forma de sobrevivência é fluir com o medo e é aqui que o magnetismo da interpretação de Rudy Youngblood (Pata-Jaguar) se faz sentir. “
Apocalypto” é um trabalho de Arte, uma visão pessoal e magna de um passado refractado através das lentes obscuras do presente. De forma desadornada e o mais directa possível, “
Apocalypto” é a história de um homem que terá de enfrentar demónios (internos e externos) e que encontra na família um refúgio de salvação.