sábado, novembro 18, 2006

"The Departed", de Martin Scorsese

Class.:



O conceito de Identidade

Martin Scorsese declarou há tempos que enquanto jovem, pintou um par de olhos na parede do seu quarto. Tal imagem foi concebida em termos religiosos, quando almejava o sacerdócio. Numa juventude decorrida em plena artéria siciliana de Little Italy (New York), Scorsese experimentou a colisão da ferocidade das ruas com a espiritualidade da religião. A respectiva tensão entre o elemento machista e a componente ascética encontra-se escoada pela sua brilhante filmografia. Para Scorsese os pecados pagam-se nas ruas, não na Igreja. Aqueles olhos perscrutando a escuridão do seu quarto, podem portanto representar uma metáfora para a sua Identidade: olhos que cintilavam enquanto jovem sorvendo filmes na escuridão de uma sala de Cinema e olhos conspícuos de um cineasta magnífico na contemplação existencial urbana.

Martin Scorsese abandona as Mean Streets de New York pela Boston de “The Departed”, um remake de “Infernal Affairs”, filme de culto de Hong Kong realizado por Lau Wai-keung e Mak Siu-fai. É certo que Scorsese duplica temas do original, algumas cenas essenciais e ainda uma ou outra linha de diálogo, mas quando escutamos “Gimme Shelter” dos Rolling Stones na exposição do crime organizado, deparámo-nos com um cunho musical que Scorsese já havia imprimido em “GoodFellas” e “Casino”. Este é o território predilecto do bom, velho Marty: os torvelinhos da violência urbana. As suas provocações psicológicas reverberam de forma diabólica numa trajectória urbana pavimentada por trilhos de sangue, com simetrias de humor infernal. Exibindo uma América insensível e imbuindo a película com os seus temas predilectos de masculinidade, raça, religião, classes sociais, violência urbana, solidão, identidade, lealdade, pecado e redenção, Scorsese coloca o espectador no centro de uma contenda entre a polícia e o crime organizado, onde ambas as frentes sucedem na colocação de um espião no campo de batalha adversário. Progressivamente, cada espião descobre a existência (não a Identidade) do seu antagonista e a tensão deflagra em vagas ensandecidas, enquanto cada homem procura expor o seu rival, antes de ser identificado e destruído.



Os desempenhos são uniformemente notáveis, de DiCaprio (Billy) a Damon (Colin), de Nicholson (Frank Costello) a Sheen (Queenan), de Winstone (Mr. French) a Wahlberg (fascinante na pele de Dignam). Nos universos de testosterona de Scorsese, a mulher ganha contornos de femme fatale, uma força destrutiva, mas igualmente redentora. Em “The Departed”, este papel cabe a Vera Farmiga (Madolyn), ocultando com brio segredos femininos e emanando expressivamente tristezas individuais. O que se torna impressionante na obra de Scorsese é o facto de cada novo filme absorver temas explorados nos seus predecessores, consolidando uma densa filmografia. Abraçando uma narrativa potencialmente convulsa e intrincada, Scorsese gera um filme com elevada perspicuidade, usufruindo de um exemplar argumento de William Monahan e de uma montagem precisa de Thelma Schoonmaker (parceira de longa data do cineasta americano), que condensa de forma fluida todos os fragmentos narrativos, os cenários estudados, o travelling espantoso de Scorsese, a interacção ultra-violenta e a energia musical. Utilizando jump cuts constantes (técnica glorificada por Godard) entre Billy e Colin, Scorsese consolida idiossincrasias e adensa um determinado espelho existencial entre ambos. Na utilização do som/música (a cargo do sempre brilhante Howard Shore) para reproduzir insulamento e desorientação, fica asseverada uma forte vibração de Nouvelle Vague.

Mais do que um esplêndido thriller, “The Departed” é um opíparo estudo sobre a Identidade. O tema da Identidade arranca logo no aforismo inicial de Frank Costello, magna criação de Jack Nicholson, apresentado numa envolvência de sombras enquanto as restantes figuras se encontram sob luz: «I don't want to be a product of my environment… I want my environment to be a product of me». O que torna esta meditação sobre o conceito de Identidade tão fascinante é o facto da acção decorrer em solo americano, território de culturas heterogéneas, sem História autêntica. Billy e Colin debatem-se com identidades manufacturadas por uma teia de sonegações que simultaneamente os mantém vivos e mortifica a alma. Utilizando a câmara como ferramenta espiritual, Scorsese revela as dimensões psicológicas de um mundo austero: o que é exactamente Individualidade? Como é que a mesma afecta as emoções, acções e auto-conhecimento humano? Será que a estrutura anímica de um sujeito se molda a partir do relacionamento com os outros, ou será que a recebe do meio onde interage socialmente? Ou será que temos Identidades múltiplas e escolhemos a roupagem adequada conforme o momento (infância, juventude ou fase adulta) e o espaço (escola, casa ou rua)? Billy e Colin vivem prensados entre a infância e a fase adulta, desejando afirmação na conquista de um espaço próprio. Os conflitos elípticos de Identidade espelhados na Tela seguem o motivo básico do Ser: a manutenção da sua Identidade. Este estímulo à meditação patente na linguagem cinematográfica de Scorsese, revela subtilmente a construção do cogito do autor. “The Departed” é um thriller escorreito que ao mesmo tempo funciona como processo de auto-descoberta de um fenomenal realizador, no qual os sobressaltos, frustrações e permutas existenciais instigam reflexão no espectador acerca das conjecturas da sua brilhante filmografia.

24 Comments:

Blogger RPM said...

Bom dia meu bom amigo!

Feliz sábado e de descanso para a ti e Ñinfa!

olha lá...com um conjunto de actores como este que mais se poderá desejar?

claro que o realizador, ajuda....mas os actores são os cereais mais importantes no produto final

abraço grande, Francisco

RPM

10:20 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Os actores são os ingredientes que o Chefe (Scorsese) trabalha mediante seus desígnios. Atente-se no caso de DiCaprio, actor (com elevado potencial é certo) que evoluiu imenso sob a alçada do Marty.

Abraço e bom fim-de-semana, caro amigo!

10:36 da manhã  
Blogger Paulo said...

É um grande trabalho de Scorsese, um filme fascinante e durinho, daquela maneira que tanto gosto no seu cinema. Eu diria ao rpm que, neste caso, os actores dão uma ajuda (e muito grande) mas mas o cunho de Marty encarrega-se de transportar o material para um outro nível ;-)

Abraço, Francisco.

11:02 da manhã  
Blogger amadis / pintoribeiro said...

Excelente blogue. Bom fim de semana.

11:10 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Paulo: Sem dúvida. Na obra de Scorsese, todos os elementos da orquestra que o envolve são bastante idóneos, contudo, todos actuam consoante os movimentos da sua batuta.

Abraço!

amadisdegaula: Obrigado. Bom fim-de-semana!

11:16 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Eu vou vê-lo este fim de semana ;)
Para não só ver novamente o génio de Scorsese em alta, como também para confirmar se é melhor que o original asiático (que eu adorei).

3:06 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Ambos são altamente recomendáveis.

3:29 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Convenceste-me! Eu que não sou muito apologista de remakes lá irei ver com olhos de ver este The Departed.

Já agora confesso que o «original» não me encheu as medidas por aí além. Talvez resultado duma má edição europeia em que parecia que faltavam ali largos minutos de trama.

Ou então é mesmo o típico frenesim asiático que salta dum momento para o outro sem aparentes ligações para a nossa mentalidade ocidental.

3:33 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Acredita. Isto é Scorsese no seu habitat natural. Denso, profundo, escorreito, engraçado e meditativo.

3:52 da tarde  
Blogger Hitchhiker said...

Vi mais o papel da Vera Farmigo como uma metáfora dos pontos convergentes (e divergentes) entre as personagens de Di Caprio e Matt Damon. Finalmente Di Caprio parece assentar num registo mais maduro, qualitativamente superior como as suas interpretações vinham adivinhando.

Gostei muito da critica e do blog. Abraço

7:18 da tarde  
Blogger H. said...

Caro Francisco,
Fabulosa exposição de ideias, apreciei de forma muito particular o último parágrafo, prolífico repositório de questionamentos filosóficos motivados pela película e que remetem para uma visão muito profunda do seu universo.
Mais uma vez, é inspirador ler-te.

9:32 da tarde  
Blogger Josefa Pacheca Pereira said...

Os professores não querem trabalhar.LOLOL!!!
Boa tarde.

2:29 da tarde  
Blogger mfc said...

Todos somos produtos das nossas contradições, mas só a alguns é permitido libertarem o génio que os habita!

5:37 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Vi esta noite. Pareceu-me à mesma altura que o original, embora as interpretações sejam muito mais fortes e carregadas de personalidade. O que deve ter dificultado no visionamento do filme foi certamente a inevitável comparação com o asiático, embora o final seja mais "justo", digamos assim, na versão de Scorsese.

2:22 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Se tudo correr bem, Quarta este e Quinta Casino Royale. Ja vi o original coreano e na altura achei-o uma das melhores obras policiais pós Woo, apesar de diversas falhas (entre elas a pouca duração do filme que não permitiu um desenvolvimento das personagens). Veremos se tais lacunas foram compensadas.

Um abraço Francisco!

2:30 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Hitchhiker: Estás totalmente correcto, como fica comprovado na forma como os dois espiões encaram o retrato de Madolyn.
Abraço!

Helena: Muito... muito obrigado pelas palavras. Inspirador é visionar e sentir obras de cineastas como Scorsese.

Josefa: Bom início de semana.

mfc: Demos graças por Scorsese ter conseguido libertar o seu (génio).

Edgar: Sim. Cada filme emana as nuances das suas culturas. O desenvolvimento das personagens em Scorsese é bem mais profundo, produto do ensaio sobre a Identidade.

Knoxville: Amplamente compensadas!

Abraço Knox!

9:20 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Scorsese vintage, não me canso de repetir :-)

2:32 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

E repetes muito bem! :)

2:57 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Por muito bom que seja, nunca será original! E fala-se muito no cast do remake, mas o original conta só com os grandiosos Tony Leung e Wong, o pequeno grande Tsang e o Lau que não devem nada a nenhum desses.

Já agora Knoxville, o filme é de HK e nao Coreano.

2:12 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Defendo que cada um possui as suas (belas) virtudes, mas tens absoluta razão quando afirmas «Por muito bom que seja, nunca será original». É um facto incontornável.

2:47 da tarde  
Blogger A said...

Eu ADOREI o filme...

Scorcese is back :)

Beijos

1:09 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

E é um regresso que se aplaude... sempre!

10:27 da manhã  
Blogger meldevespas said...

Muito boa a tua análise, sente-se bem que também és mais que um apreciador, és um admirador do Maestro Scorcese.
O elenco é soberbo é certo, mas sob a batuta deste homem, tem outro sabor!

4:25 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Sempre um prazer, receber-te neste blog.

8:17 da manhã  

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