sábado, maio 13, 2006

Top 5: Momentos sensuais

5.
“Secretary”, de Steven Shainberg

Nada como abrir um top sobre cenas libidinosas com um belo momento kinky, repleto de humor subtil e travesso. A referência reporta ao filme “Secretary” de Steven Shainberg, no qual Lee (Maggie Gyllenhaal) recebe umas palmadinhas do seu chefe Edward (James Spader elevando as suas personalidades de “Crash” e “Sex, Lies, and Videotape” a um novo nível). Após esta sessão de terapia excêntrica, ambos constatam o facto de terem tropeçado num taboo afrodisíaco que de certa forma os preenche emocionalmente. Este foi um filme que levantou bastante controvérsia, mas recebe a minha sólida admiração. Todos procuramos compatibilidade passional à nossa maneira e ninguém possui o direito para julgar a demanda de uns quantos, lá porque se julgam moralmente superiores. As duas personagens existem unicamente uma para a outra e à medida que tomam as decisões cruciais das suas vidas, questionando as suas experiências como uma estrambólica forma de amor, compreendemos como estas fases transitórias equivalem de certa forma, às etapas de qualquer relação amorosa.


4.
“American Beauty”, de Sam Mendes

Sam Mendes é um dos realizadores contemporâneos com um dos primores estéticos mais avassaladores do meio. Se Hitchcock abriu a janela para um ecossistema vívido de vizinhança em “Rear Window” e Lynch entreabriu as cortinas para o aspecto sombrio dos subúrbios americanos em “Blue Velvet”, então Mendes escancarou essas respectivas redondezas na sua estreia cinematográfica, fazendo-nos atravessar o relvado frontal, penetrando no lar de uma família que vivia o sonho americano materialmente, gerando um assustador vácuo emocional. Como diria Lester Burnham (sublime Kevin Spacey): «Em menos de um ano estarei morto. Obviamente ainda não o sei, mas de certa forma, já estou morto». Com “American Beauty”, Mendes recebeu as merecidas alvíssaras, gerando vários momentos de arrebatamento numa história que seguia o desespero mudo de um homem em plena Idade do Lobo. O delicioso devaneio de Lester, para o qual invoco a memória cinéfila, diz respeito ao deslumbrante banho de pétalas de rosa, no qual Angela (Mena Suvari) lhe efectua o seguinte convite: "I was hoping you'd give me a bath. I'm very, very dirty".


3.
“La Dolce Vita”, de Federico Fellini

La Dolce Vita” de Federico Fellini, esse memorável Épico do Mundanismo, alberga uma das minhas cenas de culto. Nesta obra intemporal que acondiciona as origens da palavra «paparazzi», Fellini volta a produzir poderosas respostas emocionais no espectador. Sylvia (Anita Ekberg) representa o arquétipo da voluptuosidade feminina, divinamente imbuída num erotismo nórdico. Assomando o ecrã com o encanto de uma criatura imaginária, a sua deificação fica baptizada no sensual mergulho nocturno na Fontana di Trevi, em Roma. Enfeitiçado pela aura romanesca da fulgurante visão, Marcello (Marcello Mastroianni) decide aproximar-se timidamente de Sylvia. As águas da fonte cessam o seu ciclo, os dois ficam envoltos num baptismo místico, todavia Marcello não chega a receber a bênção sexual de Sylvia.


2.
“Mulholland Dr.”, de David Lynch

Mulholland Dr.” é um dos filmes da minha vida. O cliché hollywoodesco (Fábrica de Sonhos) nunca foi tão profundamente desenvolvido por alguém, além do génio de David Lynch. A densidade textural, o primor pictural que flutua entre a realidade e o sonho, a assombrosa composição musical do excelso Angelo Badalamenti e a sua cadência sedutora, convocam múltiplos revisionamentos, compensando sempre o espectador pela renovada visita, sintetizando a filmografia de Lynch e inúmeros clássicos da Sétima Arte, como a paixão do autor: “The Wizard of Oz”. “Mulholland Dr.” é um filme sobre filmes. Na sua primeira metade, quando Rita (Laura Harring) se sente ameaçada, recebe o conforto protector de Betty (Naomi Watts). De forma quase palpável, começamos a sentir o calor da sua amizade e quando Betty determina que Rita já não precisa de dormir no sofá, podendo partilhar a cama com ela, Rita dissolve os limites da amizade. Num momento de raro enternecimento e sedução cinematográfica, Rita revela-se desnudada, inclina-se sobre a tímida Betty e começa a beijá-la. Quando Betty declara nos braços de Rita que está apaixonada por ela, apercebemo-nos da mútua dependência que foi sendo edificada intimamente e apesar do impacto inesperado, aceitamos a cena graças à ternura e beleza que dela emanam. Nesta manifestação de amor cândido, Lynch dulcificava os elementos para mais tarde os transformar num memorável pesadelo.


1.
“Rear Window”, de Alfred Hitchcock

Rear Window” de Alfred Hitchcock é uma gloriosa fusão de entretenimento, intriga e psicologia, que resultam inquestionavelmente numa das Obras Máximas da Sétima Arte. Além de ter sido um admirável realizador, Hitchcock era um admirável espectador. No seu poderoso estudo sobre o voyeurismo, o Mestre do Suspense diverte-se na criação de um ciclo vicioso de obsessão, pois enquanto seguimos os comportamentos de Jeff, Lisa e Stella, esse mesmo trio vive magnetizado pelas acções da vizinhança. O sadismo romântico de Hitchcock distingue grande parte da sua filmografia, privilegiando as loiras como objectos de fetichismo. O elemento peculiar prende-se com o facto destas divas raramente se aproximarem fisicamente do homem, pois o brilhante cineasta preferia contemplá-las a tocá-las. Vejamos alguns exemplos: em “Psycho”, Norman Bates (Anthony Perkins) espia Marion (Janet Leigh) pela fresta de uma parede; em “Marnie”, a protagonista grita a certa altura «Pensas que sou uma espécie de animal que aprisionaste!», sublinhando a obsessão de Mark (Sean Connery), que deseja domesticar uma mulher que se encontra indomavelmente fora do seu jugo; em “Vertigo”, Scottie (James Stewart) apaixona-se obcecadamente pela imagem de Madeleine (Kim Novak); e em “Rear Window”, Jeff trava sempre as investidas amorosas de Lisa, preferindo espiar pela janela a vida amorosa de outrem. O momento que pretendo evocar rompe com esta perversa barreira de distância, quando Jeff (James Stewart) é acordado com um beijo de Lisa (Grace Kelly). Existirá algo mais sensual do que despertar da estadia na Terra dos Sonhos, sendo aconchegado pelo beijo enamorado da nossa deusa amada?

18 Comments:

Blogger RPM said...

bom dia, obrigado!!!

de todos os teus momentos libidinosos, retenho o número 3......, apesar de que no filme de Sam Mendes, as pétalas de rosa terem caído muito bem e que originou algumas versões, à posteriori....

ontem fui ver o Match Point....para além dos temas sacramentais de W. Allen, o único momento alto do filme, para mim, foi a conversa com as 'mortas'....de resto, tudo muito trivial, muito dejá vú....e a amante muito irritante.

um abraço grande e bom fdsemana, Francisco!

RPM

9:18 da manhã  
Blogger RPM said...

ah! esqueci-me de referir....

graças ao meu comentário sobre o cinema em Angola, tens uma leitora que me escreveu sobre o cinema de Cambambe. Eu nasci no Dondo, cidade que ficava a 30 km da vila de Cambambe, onde estava a famosa Barragem Hidroeléctrica. Paraece que somos conhecidos...frequentávamos o cinema nos mesmos dias...

um voltar a encontrar passados 30 anos!!!

ainda bem que há este meio de comunicação, com as suas várias caras....

usada para este fim, é bom. para outros.....

nós os 'retornados' somos uns amantes da terra onde nascemos. loolol

obrigado, Francisco!

RPM

9:57 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Fico incomensuravelmente feliz, por este espaço ter proporcionado um contacto tão nostálgico.

Votos de um belo fim-de-semana. Forte abraço, caro Rui!

10:50 da manhã  
Blogger André Batista said...

o "Rear Window" além de ter uma das cenas mais sensuais, é também dono do título de um dos melhores filmes de sempre. uma obra-prima! Cumps. :D

12:58 da tarde  
Blogger H. said...

Olha, vou cometer uma heresia, mas o Rear Window ñ figura no meu top de favoritos do Hitchcock :x

De qq forma, aqui o top é outro, e devo dizer que é mto pessoal, há inúmeras cenas mitícas de sensualidade em cinema...

A minha nº um talvez seja a Isabelle aparecendo no quarto perante o Matthew, com umas luvas pretas e dizendo ser a Vénus de Milo... E diz a simples frase I can't stop you, I've got no arms ...
Qual é o filme, qual é? :)

Mas há tantas que só me assomam imagens à cabeça... É difícil de classificar em top...

1:08 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

André: Perfeitamente de acordo.
Cumprimentos.

Helena: Trata-se de uma cena de "The Dreamers" de Bernardo Bertolucci. Quanto a "Rear Window"... digamos que se encontra no Altar das minhas Obras predilectas de sempre. Simplesmente perfeito!

1:51 da tarde  
Blogger André Batista said...

O "The Dreamers" é fabuloso, mas não se pode comparar à obra-prima que é "Rear Window"...

10:34 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Confesso que "il Maestro" Fellini seria o meu nº 1 (é a minha queda para o Cinema Italiano...). Toda a sequência da Fontana di Trevi é inesquecível, tal como o é a sucessão de epítetos que Marcello lança a Sylvia: "És a irmã, a mulher, a Amante, a primeira Mulher da Criação...".

De qualquer modo, Rear Window é fantástico, tal como é todo o voyeurismo que o Jimmy Stewart leva a cabo. E sim, esse despertar na Terra dos Sonhos é um belo dum prémio

Saudações cinéfilas!

12:19 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

André: São dois filmes que curiosamente trabalham o voyeurismo, mas o Mestre Hitchcock manipula de forma incomensuravelmente superior a fusão de intriga, obsessão, entretenimento, sedução e psicologia.

Hugo: Pobre Marcello, que ficou arredado do agasalho carnal de Sylvia...
Cumprimentos.

8:45 da manhã  
Blogger brain-mixer said...

Hummmmm... O Mulholland Drive tem realmente cenas muito mas MUITO sensuais ;)

Mas parece-me que te afastaste um pouco dos momentos ditos "eróticos". Nesse caso havia muito por onde pegar!

6:46 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Não procurei explorar o erotismo. Apenas evocar a sensual composição de algumas cenas de culto.

8:54 da manhã  
Blogger Dora said...

Então e as cenas do "Bound" com a Gina Gershon e a Meg Tilly?? :-) Very hot!!

3:50 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Very... very hot!!
Mas prefiro estas cinco... o requinte é superior. :)

9:12 da manhã  
Anonymous João Bastos said...

Realmente Grace Kelly merece um lugar em qualquer cena sensual: toda ela é sensual. E "Rear Window" é puro cinema. Se existe obra com a qual possamos definir o cinema essa é a do mestre Hitchcock.

Um top relativo a um determinado tipo de cenas é complicado, contudo eu colocaria na lista uma cena lésbica do tele-filme "Gia", com Angelina Jolie.

6:51 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Sensualidade... Jolie... aí está uma fusão perfeita.

Cumprimentos.

10:29 da manhã  
Blogger Cataclismo Cerebral said...

Finalmente, encontro alguém que parece gostar tanto do Mulholland Drive e do Lynch como eu. Óptimo top, by the way. Se bem que a dupla Gina Gershon/Jennifer Tilly no excelente Bound também merecesse entrar no top...

Abraço

6:53 da tarde  
Blogger Cataclismo Cerebral said...

ah, e o Vertigo também consegue ser muito sensual!

6:54 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Bela menção do "Bound".

Abraço!

9:47 da manhã  

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