domingo, abril 02, 2006

A minha BD predilecta



Antes de me alongar sobre uma determinada obra de veneração pessoal, gostaria de deixar bem explícito o conhecimento minguado que possuo para com a Nona Arte (Banda Desenhada). Contudo, sou humano, tenho sentimentos que crepitam no interior da minha alma e emanam por todos os poros da minha essência. Como tal e tendo a Arte o poder de nos transcender emocionalmente, existe uma Obra de Banda Desenhada que enleva a minha admiração e respeito: “Watchmen” de Alan Moore, ilustrada por Dave Gibbons.
O que me leva a dissertar um pouco sobre a Obra aclamada de forma praticamente unânime pela crítica e público como a melhor de sempre no mundo dos quadradinhos é a derradeira notícia sobre as constantes tentativas em adaptá-la ao mundo da Sétima Arte. Vários cineastas já foram nomeados para a intrincada adaptação, desde Darren Aronofsky (“Pi”, “Requiem for a Dream”) a Paul Greengrass (“Bloody Sunday”, “The Bourne Supremacy”). Agora que o projecto se deslocou da Universal para a Warner, um nome aflorou as recentes cogitações. Nada mais, nada menos, que Zack Snyder, o cineasta responsável pelo excelente remake “Dawn of the Dead” (original de George A. Romero), actualmente envolvido na adaptação de outra graphic novel: “300” de Frank Miller.

Como iniciar a exposição de sentimentos que “Watchmen” edificou em mim ao longo dos anos? Envolto numa atmosfera noir, “Watchmen” transcende as fronteiras do seu meio, resultando numa das únicas BD que merece o termo «Graphic Novel», graças à opulência do seu argumento, ao detalhe empreendido no retoque realístico das suas personagens construtivas, ao diálogo e progressão da história. Publicada originalmente em 1985 pela DC Comics, a banda desenhada tornou-se num clássico instantâneo ao retratar a realidade como se os super-heróis existissem de facto. Devido à sua fertilidade de detalhes, complexidade narrativa e actualidade temática (mesmo decorridos 20 anos), trata-se de um belo exemplo da potencialidade artística da BD.
Watchmen” é muito mais do que outro episódio de um universo alternativo. É uma ponte entre o universo dos quadradinhos e o cosmos humano, onde Alan Moore descreve cenas quotidianas que aparentam preenchimento de páginas, mas na realidade encontram-se acumuladas de significado, iluminando a vida comum de alguns, para que entendamos a tragédia que afecta milhões. “Watchmen” quebrou velhos paradigmas empregando incoerência e características falíveis nos super-heróis que são encarados pelo público com porções idênticas de respeito e receio. Moore é um dos responsáveis na transição que ocorreu nos comics, desde as suas raízes juvenis ao seu estatuto de maturidade actual. Ao aplicar uma «voz» distinta nas suas personagens, o autor explana o seu notável dom como escriba, superando uma bela quantidade de autores que se encontram fora do mundo da Banda Desenhada. Não é à toa que a revista “Time” considerou “Watchmen” um dos 100 melhores Romances do século XX.
Na ilustração, Dave Gibbons desencadeia um mecanismo de associação e repetição de imagens, num magistral uso de Caos e Fractal que derrama simbologia para ajudar a compor a magnitude do produto final. Num trabalho de ilustração que emana vibrações cinematográficas, Gibbons reproduz uma acção fluida utilizando um artifício óptico idêntico ao mecanismo cinematográfico conhecido como «Persistência de Visão»: a ilusão que é dada pelo fato de um fotograma visto pelo olho humano continuar na retina por um curto espaço de tempo após a sua visualização, encadeando os fotogramas seguintes com os anteriores. O engenho de Gibbons traduz o agente emotivo de Moore, derramando a narrativa dentro de cada painel, imbuindo propósito sem desperdiçar uma única frame.

Existem várias cenas memoráveis, das quais destaco duas situações que me arrebataram logo no primeiro contacto. Numa curta cena entre Nite Owl e Silk Spectre, as personagens são colocadas nos limites do painel enquanto assistimos ao seu diálogo através de um espelho. A outra situação reporta ao silêncio explosivo de seis páginas que reverberam num pináculo de virtuosidade. Em várias camadas narrativas, a história trabalha problemas sócio-políticos, discute o abismo metafísico entre religião e ciência e ainda expõe a ignorância da maioria da população mundial em relação a temas debatidos há décadas (filosofia, sistemas caóticos, teoria de fractais, relatividade ou componentes subatómicos).
Watchmen” é o supra-sumo das obras desta Arte Sequencial, tendo influenciado uma horda de imitadores. Após algumas leituras, ainda consigo encontrar pormenores que me escaparam, em relevantes particularidades que impulsionam a experiência de leitura e certificam o génio de Alan Moore pela justaposição. Imbuída numa estrutura complexa definida por detalhes intrincados, a obra resulta num admirável ensaio sobre os arquétipos que servem de alicerce a um meio considerado tradicionalmente como «Arte menor». “Watchmen” é uma Obra-Prima que funciona como um testemunho cabal sobre o firme estatuto do Universo BD como séria forma de Arte.

20 Comments:

Blogger H. said...

se o teu conhecimento sobre a dita "9ª Arte" é minguado o meu é nulo! mas é algo que tenciono reverter o mais breve possível, tendo-se-me aguçado a curiosidade transposições de BD ao cinema nos últimos anos, nomeadamente Sin City e V for Vendetta, do Miller e do Moore, que figuram no teu post. e agora ao ler tamanhos elogios, a curiosidade estende-se a Watchmen...!

(P.S. Mal posso esperar pla tua análise do Breakfast on Pluto, que eu verdadeiramente amei. Despacha-te a escrever! ;p )

9:25 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

Watchmen poderá ser ou um dos melhores filmes sobre BD ou o total fracasso ao nível de um Batman & Robin... Está tudo nas mãos da escolha do realizador escolhido!
E pelo simples facto de Alan Moore ter ficado insatisfeito com a adaptação de "V for Vendetta", pode-se concluir que ele é bastante exigente!

Quando à BD propriamente dita, estive para comprar um exemplar, mas... Os DVD's são uma força maior ;)

11:50 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Helena: Não vi esta semana "Breakfast on Pluto". O comentário que deixei no teu blog manifestava a profunda admiração pelas opções que o talentoso Cillian Murphy toma, para continuar o desenvolvimento da sua versatilidade. Ele tem gerido muito bem a carreira.

Não aprecio muito Neil Jordan (apesar da tua crítica positiva), mas esta semana sinto-me revoltado e indignado por "Dare mo shiranai" de Hirokazu Koreeda ter estreado no nosso país atrasado e apenas numa única sala de Cinema, sendo que o Porto ficou de fora. É uma tristeza!!

Edgar: A última edição ("Absolute Watchmen") é imperdível para qualquer admirador de Arte. Uma relíquia.

1:02 da tarde  
Blogger H. said...

O filme que referes está apenas no King, não é? Vi o trailer e pareceu-me bastante interessante. Espero que fique mais uma semana pq esta será mesmo impossível ir ver...
A situação da sala única lembra-me o que aconteceu com o I love Huckabees o ano passado... E pensar a porcaria que estreia nas salas de todo o país, acredito que seja revoltante!

De qq forma, aconselho vivamente o Breakfast on Pluto. Eu não sou fã de Neil Jordan apesar de gostar do seu trabalho nos filmes que vi dele. Mas este tem um tom cómico que escapa à atmosfera mais pesada de Jogo de Lágrimas ou O Fim da Aventura. Vale realmente a pena - e o Cillian está perfeito!

1:46 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Refiro-me ao filme que recebeu o título português de "Ninguém Sabe" e o título inglês de "Nobody Knows".

Recordo-me perfeitamente do caso do filme de David O. Russell, mas o aspecto mais gritante é o desprezo relativamente ao cinema asiático. É que não nos estamos a referir a obras medianas... referimo-nos a obras que foram aclamadas como um dos melhores filmes do ano da sua estreia. É revoltante! Aqui no Porto, se não fosse o FANTAS ou o velhinho Passos Manuel, nunca teríamos o privilégio de ingressar no sublime universo do Cinema Asiático.

Quanto ao novo do Jordan, que tanto adoras... admito que já me senti menos inclinado a visioná-lo. Tem sido um filme que divide muitas opiniões, sendo que as plateias refinadas o têm aclamado de forma quase unânime. Talvez dê uma chance ao Jordan (afinal de contas, admiro imenso o trabalho de Murphy), mas o mais certo é só voltar a colocar os pés numa sala de cinema aquando do lançamento do novo filme de Terrence Malick.

O facto que enegreceu esta semana de estreias deixou-me bastante abatido e desiludido com este país cada vez mais pobre culturalmente.

6:57 da tarde  
Blogger André Carita said...

Adoro algumas BD da Marvel como The Punisher e até vou ah bola com Spiderman e outras da DC Comics/Vertigo como é o caso de Constantine (para mim obrigatório). Watchmen acredita que não conheço minimamente mas vou estar mais atento! Um abraço!

11:15 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Por favor... descobre-a!
É uma obra imperativa da Nona Arte.

Abraço!

12:54 da tarde  
Blogger Paulo Bonifácio said...

Deiam uma olhada: http://www.imagofilmfest.com/8pt_preview2006.htm

9:11 da tarde  
Blogger _Loot_ said...

Encontrei este Blog por acidente e gostei bastante, achando que a pessoa que o escreve tem muito bom gosto em filmes, depois para minha surpresa vejo posts sobre os Tool, também a minha banda favorita mas tenhod e admitir a maior surpresa foi agora, porque não conheço muita gente que leia banda desenhada e que tenha gostos parecidos aos meus nestes 3 campos em simultaneo (música, cinema e BD).
Wachmen é sem dúvida um dos melhores livros que li na vida sublinho todas as palavras escritas, este livro é uma obra de arte.
Mas há muitos livros que merecem o título de graphic novel, não sei os livros que conheces mas posso aconselhar alguns, de qualquer das maneiras Wachmen é mesmo dos melhores.

7:18 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Paulo Bonifácio: Eu estive ao corrente.

Loot: Não domino a Nona Arte com o mesmo conhecimento da Sétima Arte, mas reconheço a existência de títulos que merecem o epíteto de Graphic Novel, essa etiqueta vendida ao desbarato nos dias que correm. Todavia, considero "Watchmen" a Magnus Opus da BD.
Obrigado pelas palavras.

7:27 da tarde  
Blogger _Loot_ said...

Estou com alguns problemas no pc por isso peço desculpa pelos posts eliminados.
Já leste Sandman? ou mais alguma coisa de Neil Gaiman (uma espécie de aprendiz do Moore) que costuma trabalhar com o Dave Mackean um dos melhores desenhadores do género.
Aconselho também tudo do Grant Morrison e do Frank Miller, e claro tudo do Alan Moore, já leste o V for Vendetta? podes não gostar tanto como do Watchment mas de certezxa que vais gostar.

7:38 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Conheço perfeitamente o trabalho do Moore e reconheço facilmente o seu talento.

"The Sandman" (bela recordação) é progressivamente interessante, mesclando um género de horror inicial e evoluindo para um patamar de fantasia, imbuido com mitologia clássica e hodierna. De Gaiman gosto igualmente de "Marvel 1602", "Stardust" e dos seus romances "Coraline" e "American Gods".

Miller é igualmente uma referência incontornável e é de aplaudir o seu recente empenho cinematográfico, sendo que aguardo impacientemente o resultado final da adaptação de "300" e do seu próximo projecto: "The Spirit", o extraordinário trabalho de antologia BD de Will Eisner, seu falecido amigo.

8:58 da tarde  
Blogger _Loot_ said...

Se gostas de Gaiman tens de ler o "signal to noise" é sobre um realizador de cinema. E também o "books of magic", o "Mr punch", "violent cases" e "Black Orchid".
Fora da banda desenhada ando a ler o Good Omens dele e do Terry Pratchett, quero comprar o American Gods.

9:18 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Tentarei colocar os olhos nessas obras, sendo que já andei para pegar no "Black Orchid".

9:19 da manhã  
Blogger H.I.Victor said...

Sou colecionador e leitor de banda desenhada há mais de 20 anos, fiquei satisfeito com seu comentario, mesmo que usando palavras muito formais, Watchmen é sem duvida uma das melhores bds que ja lí, mas existem outras que podem ser comparadas, como é o caso de "Piada mortal" do mesmo genial Alan Moore, Brian Bolland e John Higgins, uma historia do Batman e seu eterno inimigo Jocker, uma historia com apenas umas 20 ou 30 paginas, o argumento é simples mas cativante, a arte é assombrosa, cores e desenhos impecaveis. Tenho tambem com muito orgulho, pois me deu muito trabalho a conseguir, os dois capitulos de tres, de uma das 1ªs historias de Alan Moore, "Jack Marvel". "V for Vendetta" tambem é um monumento. Mas não posso deixar de afirmar que "monstro do Pantano" é sem duvida nenhuma uma obra que fica lado a lado com o "monstro" "Watchmen". Fico por aqui recomendando que todos leiam bd, os filmes, mesmo os mais rigidos e exatos comparados com a obra, nao sao a mesma coisa, um abraço.

2:46 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Excelentes recomendações.

Abraço!

10:21 da manhã  
Blogger h.i.victor said...

Eu vivi no Brasil, durante 20 anos, nasci em moçambique e devido ao "grande" 25 de abril minha familia teve que fugir para outro pais, mas nao escrevo para reclamar, apenas explicar o meu conhecimento na area.Tenho outra recomendaçao, que notei nao foi mencionada ainda, é o caso de "Cavaleiro das Trevas" de Frank Miller, uma historia do Batman, Bruce Waine já está com uns 60 anos, todos os seus inimigos aparecem,´há uma luta até a morte Batman vs Super Homem, e pela 1ª e unica vez o robin é uma menina, aconselho a lerem.Um abraço

11:02 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Essa já marca presença na estante.

Abraço!

11:38 da manhã  
Blogger meldevespas said...

também sou fascinada por BD, e a biblioteca lá de casa "engrosss" a cada dia.
Gosto do incontornável Hergé, dos inesqueciveis Goscinny e Uderzo, e mais recentemente tenho-me deleitado com Hugo Pratt e o seu amigo do peito Milo Mannara.
Esse Watchman de q falas, AINDA não conheço, mas vou apontar nessa direcção...

5:49 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Espero que seja do teu agrado descobri-la...

5:59 da tarde  

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