quinta-feira, março 30, 2006

Estigmas culturais



A National Association of Theatre Owners (Associação Nacional de Proprietários de Cinemas dos Estados Unidos) planeia bloquear o sinal de rede dos telemóveis dentro das salas de Cinema, depois de constantes demonstrações de falta de educação terem gerado inclusivamente brigas dentro das salas, enxovalhando o nome do estabelecimento nas colunas de reclamações da imprensa jornalística.

Qual a minha reacção à respectiva intenção? Palmas efusivas, apoio fervoroso e promessa de fogo de artifício à escala de uma explosão de energia em território solar, caso a proposta seja aprovada. Mesmo que estes desígnios vinguem na terra cujo presidente eleito não recebe a maioria de votos eleitorais, tal fórmula apenas chegará ao território infestado por uma densidade populacional que sofre de amnésia das suas raízes culturais, no mesmo dia em que tivermos uma longa-metragem de ficção científica. É verdadeiramente revoltante ingressar na mística escuridão de uma sala de Cinema, acomodar-me no aconchego dos seus aposentos (AMC falando, claro está) e ser incomodado pelo grasnar espalhafatoso de um indivíduo que recebe uma chamada ao som do abjecto toque da verborreia musical de James Blunt; ou pelo ruminar de um pacóvio qualquer que chafurda no balde pipocas salpicando as pessoas que o rodeiam; ou pelo grupo de adolescentes armados em sniper que usam um laser para provocar gargalhadas mentecaptas; ou pelas patadas sísmicas de um asno que se encontra na poltrona da nossa retaguarda; ou pelo par que se chucha mutuamente naquele território sagrado (pelo menos para mim), porque de forma papalva decide desperdiçar euros quando se poderiam galar de forma gratuita e sem incómodo noutro local do género… sei lá… talvez… em CASA!!

Talvez um dia esta fantochada cesse. Prevejo que tal aconteça no exacto dia em que os responsáveis da série “Morangos com Açúcar” recebam um Oscar depois de adaptarem cinematograficamente “Os Lusíadas”, caracterizando o Adamastor com um penteado radical, olhos verdes e apaixonado por uma voluptuosa Vénus de lábios carnudos, que por sua vez terá um caso escaldante com um Vasco da Gama bronzeado, que se pavoneia de tronco desnudado junto de indígenas ninfomaníacas.

13 Comments:

Blogger gonn1000 said...

Bem, hoje não estás para brincadeiras lol
Mas sim, concordo com praticamente tudo o que disseste.

1:49 da tarde  
Blogger Ana Marques said...

Uma grande vénia para todo o teu texto!!!
Apoio do principio ao fim tudo o que disseste que revoltam uma pessoa que realmente quer ver o filme descansado! O que mais me enerva é quando não só o telemóvel toca (tens sorte ser james blunt e não o "hino do sporting" ou o "apita o comboio") mas essas pessoas realmente atendem o telemovel "Olha tou no cinema mas diz lá, não me interessa minimamente estar a incomodar as outras pessoas", pelo menos tenham o civismo de o atender fora da sala!
Mas civismo e portugal são duas palavras que não se podem utilizar na mesma frase!!

3:09 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

Bom desabafo, Francisco! Eu não diria melhor ;)

Quanto aos telemóveis, podiam fazer melhor: Deixá-los ligados e instalar um complexo sistema utilizado para o senssuround, onde de cada vez que atendiam o telemóvel, uma valente descarga eléctrica subia-lhes pelo assento acima! :P LOL

5:48 da tarde  
Blogger H. said...

d-e-l-i-r-a-n-t-e-!!!!!
é que este é daqueles textos que assinaria por baixo umas infintas vezes.
é caso para citar "palmas efusivas, apoio fervoroso e promessa de fogo de artifício à escala de uma explosão de energia em território solar" para o teu manifesto!

mas confesso-te: há algo que me irrita muito mais que os telemóveis no cinema. é grupinhos de amigas que entre risdas e afirmações decididas num tom de voz quase maior que o das personagens do filme decidem ir contar as últimas da sua pseudo-vidinha amorosa para a sala de cinema.
haverá algum dia solução para esse flagelo???

6:29 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Gonçalo: Um pouco cáustico por dia, nem sabes o bem que nos fazia. ;)

Ana: Não somos o único país com um nível tão baixo de civismo, mas a maioria da nossa população encara uma ida ao cinema com a sensibilidade de uma patada de elefante.

Edgar: Porque não? Ou então uns raios desintegradores à "War of the Worlds".

Helena: Colocaste o dedo noutra ferida lancinante que iguala a daqueles moçoilos que berram aos quatro ventos o final do filme, em obras do género "The Sixth Sense".

7:59 da tarde  
Blogger Museu do Cinema said...

Muito legal seu blog. Sou do Brasil, depois dê uma olhada no meu blog.

8:53 da tarde  
Blogger Mário Lopes said...

E mais nada! Apoiado! Ah "ganda" Francisco :)!

Abraço

Mário Lopes
http://lordofthemovies.blog-city.com

9:40 da tarde  
Blogger pedro oliveira said...

Bom dia,

Vou utilizar um texto seu para uma aula, conferir aqui:
http://santamargarida.blogspot.com/2006/03/256-engenho-arte.html

Foi bom ter surgido esta dúvida, pois, através dela descobri o seu "blog" que já está nos favoritos.

Obrigado.

6:53 da manhã  
Blogger André Batista said...

Morangos Meets Lusíadas :D LOOL

Nem no pior dos meus sonhos..

Cumps !

10:16 da tarde  
Blogger André Carita said...

este texto fez-me lembrar um outro que escrevi sobre os tapperwares e os panados em dois LOL
Mas que grande notícia, mais irritante que os toques só mesmo a luz do ecrã do telemóvel de uma sopeira que se encontra sentada umas filas mais abaixo. Até ofusca dasse!!
100% de acordo contigo francisco... e siga que se faz tarde!

Um abraço!

1:26 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Museu do Cinema: Certamente darei um pulo ao teu espaço.

Mário Lopes: Obrigado pela visita. ;)
Abraço!

Pedro Oliveira: É sempre bom constatar a existência de pessoas que referem os autores dos textos que utilizam.
Abraço!

André Batista: Só falta juntar a malta do "Crime do Padre Amaro"... O_o
Cumprimentos.

André Carita: Lembro-me perfeitamente desse teu post. Estamos em sintonia.
Abraço!

10:51 da manhã  
Blogger EL said...

Concordo com tudo. Mas de facto sentir as patas de alguém sempre a bater na cadeira é o mais irritante... E para quando a substituição de vendas de pipocas Americanizadas por algo Português, tipo feijoada, cozido à portuguesa? :)

9:40 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Ou doces regionais (Pastéis de Belém, Ovos moles, etc)... :D

12:53 da tarde  

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