segunda-feira, março 27, 2006

"V for Vendetta", de James McTeigue

Class.:



Explosões intelectuais em baldes de pipoca

Hollywood tem vindo a repercutir vibrações de meados da década de 70, quando o funesto dialecto político era desmascarado criativamente por filmes de Costa Gavras (“Z”), Sidney Lumet (“Murder on the Orient Express”), Alan J. Pakula (“All the President's Men”) ou Francis Ford Coppola (“The Conversation”). Recentemente, filmes de baixo orçamento como “Good Night, and Good Luck.” materializaram investidas mediáticas junto da população americana com questões inomináveis. De forma impensável, sob a choruda chancela financeira da Warner surge “V for Vendetta”, um filme que abrange questões sócio-políticas, num formato rotulado como entretenimento para retardados: blockbuster.

A Inglaterra de 2020 não se encontra muito distante de “1984” de George Orwell. O país encontra-se sob o controle de um regime totalitário, no qual as pessoas são vigiadas constantemente pelo aparelho repressor apresentado por Orwell. Neste cenário de opressão surge um anarquista que se apresenta com o cognome "V", uma espécie de Fantasma da Ópera misturado com Zorro (sem o lenço efeminado ao pescoço) usando uma máscara que homenageia Guy Fawkes, o conspirador que tentou explodir o parlamento inglês e destituir o rei James I. A história gira em torno de Evey (Natalie Portman com um sotaque inglês volúvel), uma jovem que é salva de uma situação de vida ou morte por V (Hugo Weaving num portentoso trabalho de eloquência física e inflexão verba, que evoca o desempenho notável de Eric Stoltz em “Mask”). Utilizando tácticas terroristas para atacar o sistema, V convoca os seus compatriotas numa revolução contra o império de tirania.



O incendiário romance gráfico que inspirou este filme foi escrito por Alan Moore e ilustrado por David Lloyd. Moore é o criador de “The Watchmen” – uma obra magistral que representa uma das melhores criações BD de todo o sempre – e de duas obras que originaram filmes no mínimo insonsos (“From Hell”, “The League of Extraordinary Gentlemen”). Devido ao vil tratamento na adaptação das obras referidas e juntando a sua faceta de arrogante empertigado que se considera intelectualmente superior ao resto da população mundial, Moore excluiu o seu nome do projecto rotulando o argumento de «lixo». Contudo, o ilustrador David Lloyd aprovou a adaptação dos irmãos Wachowski, que pelejaram para actualizar a BD da década de 80 sobre as tácticas de Margareth “Dama de Ferro” Thatcher. Além da atenção que os irmãos-que-não-concedem-entrevistas depositam nas actuais políticas geo-estratégicas, existem ainda menções à gripe das aves e até à escassez de água, para incutir vibrações contemporâneas na adaptação. Mesmo aqueles que se estejam a marimbar para a temática do filme, poderão sorver algo que se demarca dos arquétipos exaustivamente metralhados num género de Hollywood (Adaptação BD), gerando entretenimento com ideias. Assim sendo, em que planeta poderá este intento ser condenável?
Tecnicamente, o filme evoca o imaginário operativo fascista, com vermelhos e negros alusivos e recebe a destreza da composição musical de Dario Marianelli. Apesar de embrulhado num nobre conceito de ficção científica (mesclando mito, história, alegorias políticas e teorias da conspiração), a fluidez do filme sofre com um ritmo algo enferrujado. A estreia de James McTeigue (director assistente dos irmãos Wachowski na trilogia Matrix) na cadeira de realização tem os seus momentos, - especialmente na nota poética da manipulação de sombras no assassínio da derradeira responsável de Larkhill - mas carece do arrojo para a concepção de cenas extasiantes. Ao contrário de “The Matrix” (o original de 1999! Ignorem o resto…) que arrebatou como festim cinematográfico e despontou reflexões políticas, culturais e existenciais no despertar pós-impacto, “V for Vendetta” coloca a ideologia no topo da montanha e só depois providencia um espectáculo visual para transmitir a mensagem. Ironicamente, para um filme que argumenta que certos actos de violência poderão ser justificados, “V for Vendetta” apresenta muito poucos e medianos. O trailer prometia um espectáculo de acção, mas inserido nesse género o filme falha, apoiando-se desajeitadamente em esquematizações estereotipadas e descurando identidade própria.


O ponto máximo do filme é definitivamente o argumento exímio dos irmãos Wachowski. Depois de chafurdarem conceptualmente na encomenda das sequelas de “The Matrix” (“Reloaded” e “Revolutions”), é extraordinário verificar a complexidade emocional imbuída na inesquecível e arrepiantemente emotiva história de Valerie, bem como o tremendo significado do beijo que os lábios quentes de Evey encontram na resposta fria da máscara de V, autenticando definitivamente a identidade e propósito do mascarado.
Ao declarar um edifício como um símbolo e a sua destruição como um alerta para a contaminação das veias administrativas da nação, os irmãos Wachowski alfinetam magistralmente um ponto sensível americano. Existe uma arquitectura britânica, mas a silhueta das torres gémeas ensombra as linhas densas do argumento. Será que a democracia mundial resvala de forma inquietante em direcção a um regime totalitário? Será “V” um terrorista ou um Soldado da Liberdade? Qual a diferença que distingue exactamente tais epítetos? Se “V” é um terrorista, porque será moralmente superior um governo que controla a população através do medo? Subtilmente, o filme manifesta a psicologia enviesada do terrorismo quando nos julgamos militantes do lado justo da contenda. A mensagem será exultada por alguns e aviltada por muitos que a apelidam de pró-terrorista. A única explicação que encontro para a aldrabice de tal rótulo é a possibilidade dessas pessoas se terem equivocado na sala da projecção do filme em questão. Muitos poderão sucumbir à tentação de considerar “V” um herói, mas a figura interpretada por Weaving é apresentada como um lunático subversivo e a sua máscara evoca a mensagem sugerida pelo brilhante filme de Hiroshi Teshigahara, intitulado “Tanin no kao”: um homem privado de expressão deixa de ser humano. O filme analisa a natureza dos governos e do terrorismo, questionando a sua justificação, mas nunca o glorificando. As questões de poder e rebelião serão inconfortáveis para muitos, mas apenas num mundo em que pessoas que questionam métodos de Bush e companhia são rotuladas de simpatizantes do terrorismo, a posição deste filme poderá ser considerada irresponsável. A BD de Moore tinha Tatcher como vilã, mas nesta adaptação cinematográfica o vilão não é Bush. O verdadeiro vilão de “V for Vendetta” é a mesquinhez e preguiça do cidadão comum.
É bem verdade que “V for Vendetta” tropeça um pouco nas suas ambições, mas o facto de espicaçar o torpor político da audiência adolescente merece ressalva. Alvo de uma artística propaganda via cartazes publicitários, o filme foi claramente concebido almejando provocar furor no box-office, ou seja, apelando à enorme fracção de estroinice que sofre de letargia intelectual e prefere manter a massa cinzenta atenta ao conteúdo do balde de pipocas em detrimento do objecto cinematográfico em questão. Este é um filme municiado com ideias que não são geradas por computação gráfica, o que representa algo invulgar no vácuo hollywoodesco. Evocando princípios democráticos negligenciados, “V for Vendetta” exprime insatisfação com estratégicas geopolíticas, presenteando algo restrito em filmes com orçamentos exorbitantes e atingindo a população apática e distraída do Cinema mainstream através do acessível veículo de acção. “V for Vendetta” esquadrinha muito mais do que meras explosões, as suas cogitações provocativas elevam-se acima dos estilhaços que acarreta.

12 Comments:

Blogger Mário Lopes said...

Eu acho que de pipoca este filme tem muito pouco...Há que pensar para além do que está no ecrã :P! Achei este "V For Vendetta" absolutamente genial!

Boa análise :)!

Abraço

Mário Lopes
http://lordofthemovies.blog-city.com

1:33 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Mário, atenta no seguinte: não rotulo o filme de pipoca (lê atentamente), mas a produção da Warner almeja categoricamente o público desse tipo de filmes. Basta verificares como apela a massas através da mega campanha publicitária e dos trailers que anunciavam (de forma errónea) um filme de acção.

Aliás as campanhas de Silver e companhia têm sempre a pobre tendência de explanar todas as cenas de acção de um filme no seu trailer (observa "Reloaded" e Revolutions").

O filme é brilhante e o que o torna único é o facto de atingir o público pipoca com ideias (palmas para os irmãos Wachowski!), mas falta-lhe consistência na realização (observa a discrepância do belo tratamento do último assassinato em relação aos medianos anteriores, por exemplo) e falta-lhe o cariz influente de um "The Matrix" para atingir o difícil patamar de Obra-Prima.

Abraço! :)

1:53 da tarde  
Blogger H. said...

Acabei de ler, de um fôlego, a tua análise. Soberba, como sempre.
Achei extremamente interessante a dissecação filosófica que fazes do terrorismo, e da própria figura de V. Qdo afirmas "um homem privado de expressão deixa de ser humano" fizeste-me questionar a própria ideia que criara da personagem...

Aplausos tb para a menção do dicotómico beijo ("o tremendo significado do beijo que os lábios quentes de Evey encontram na resposta fria da máscara de V, autenticando definitivamente a identidade e propósito do mascarado"), que se me olvidou por completo qdo escrevi sobre o filme bem como a perturbadora e tocante história da Valerie.

Como sempre as tuas menções cinematográficas são profusas e constituem uma inspiração, se não para qualquer leitor, pelo menos para qualquer pseudo-crítico (onde obviamente tenho a humildade de me incluir).

Apenas discordo quando afirmas que "a fluidez do filme sofre com um ritmo algo enferrujado". A meu ver essa fluidez nem sempre (ou quase nunca) de um ritmo trepidante, é fabulosamente manejada para que apreciemos cada pedaço de mensagem subtendentida, para que demoremos o olhar (e o pensamento) na miséria dos corpos, na corrupção do sistema, nas verdades tão óbvias que cegamente não vemos sob um regime encapuzado de garante do bemm-comum. Esse carcácter comtemplativo é essencial e afasta V for Vendetta de um vulgar produto 'acção e aventura' contribuindo para reforçar o cunho 'diferente' deste blockbuster.

De facto, não é só no beijo que há uma dicotomia interessantíssima, é tb na natureza do filme em si, algo que insistes em explicitar. Um filme que apela inegavelmente a uma reflexão intelectual do foro ideológico e não só, surge-nos sob a roupagem de um blockbuster que é, sem contudo se desvirtuar. Exemplo único? Não creio. Lord of the Rings surgia com uma premissa semelhante, mesmo tendo um desenvolvimento diferente. Mas se exceptuarmos a monumental obra-prima de Peter Jackson, considero este V for Vendetta o melhor caso de entretenimento dos últimos anos. Entretenimento com conteúdo, e muito!, mas entretenimento ainda assim.

E já me tendo alongado, fico por aqui.

Remember, Remember the 5th of November ;)

2:08 da tarde  
Blogger Knoxville said...

"O filme é brilhante e o que o torna único é o facto de atingir o público pipoca com ideias (palmas para os irmãos Wachowski!), mas falta-lhe consistência na realização (observa a discrepância do belo tratamento do último assassinato em relação aos medianos anteriores, por exemplo)"

All said Grande Francisco. Agora procura por aí o 9/11 Loose Changes 2nd Edition e compara com o filme.

Um enorme abraço!

7:21 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Helena: Eu passo a explicar um pouco melhor a razão pela qual considero o ritmo enferrujado, inconsistente e pouco arrojado. O filme ostenta aquele magnífico assassinato da derradeira responsável pelo que sucedeu em Larkhill, mas os assassinatos que o precedem carecem da qualidade que a cena em questão exibe.

O tratamento da acção revela o pulso pouco firme do estreante McTeigue, pois quando se exigia audácia, ele recorre ao apoio de mecanismos já aflorados anteriormente, pecando pela ausência de identidade própria e pelo fraco manuseamento dos mesmos.

Em "The Matrix" fomos arrebatados pelo visionamento de cenas extasiantes e nos momentos seguintes a nossa mente processava instantaneamente reflexões variadas. Em "The Lord of the Rings", Jackson rodeava-nos de batidas e acelerações inesperadas envolvendo a audiência numa experiência que praticamente nos colocava no centro da acção dentro da tela. Em "V for Vendetta", somos estimulados por uma genial composição argumental, mas quando a acção entra em cena, somos remetidos para um canto enquanto V despacha sozinho as suas vítimas de forma individual. Não existe aquele efeito transcendental.

Mas claro está, uma obra cinematográfica é sempre sentida supra-pessoalmente e esta é apenas a exposição do que experimentei.

Obrigado pelo sacrifício de ler (novamente) as extensões das minhas exposições sentimentais e não te consideres pseudo-crítica. As tuas análises têm tido uma qualidade refinada bem crescente, numa dissecação bem apoiada numa consistente sustentabilidade.

7:33 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Knoxville: Prometo que o tentarei arranjar.

Abraço!

7:34 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

Foi um grande filme! Saí da sala de cinema totalmente absorto (a pensar na política actual e no que se poderia fazer por cá...).

Embora o ano esteja no começo, apresenta-se como o melhor filme do ano e ficará sem dúvida de filme de CULTO. Adorei a ambiguidade moral de V, tal como o facto de darem mais importância ao argumento que aos efeitos especiais: Assim, quando no final explodem com tudo, mostra-se como um fogo-de-artifício grandioso e simbólico.

E como sempre Francisco, óptima análise ;)

1:54 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

É sempre bom constatar quando um filme agrada ao espectador. E também gostei muito de verificar a forma como exprimes o teu agrado.
Ah grande Edgar! ;)

7:04 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

Quando o filme é bom, não me faço rogado! ;)

7:26 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

É assim mesmo!

8:46 da tarde  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

comparando com o 9/11, sobre a destruição de edifícios com significado, na BD é o parlamento que explode logo no início e o Bailey só 3 meses depois.
Qto ao filme ñ ter a espectacularidade de Matrix, convem notar que se baseia n1 BD bastante discreta visualmente, os desenhos estavam ali mais para servir a hstória e ñ servirem-se a si próprios. Funciona mais como um policial do que como uma história de super-heróis.
Aliás, estou a preparar um texto com todasas discrepâncias entre a BD e o filme.
http://axasteoque.blogspot.com/

11:57 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Concordo. Os irmãos tentaram imbuir o filme com elementos cinematográficos, mas o resultado apesar de desarticulado, consegue ser bem interessante.

12:57 da tarde  

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