sábado, junho 23, 2007

"Zodiac", de David Fincher

Class.:



Obsessão erosiva

A filmografia de David Fincher chispa uma obsessão pela justificação da existência do Mal. São histórias cínicas sobre o cinismo do mundo, contadas cinicamente através de sofisticadas ligações criativas e gostos experimentais que retratam de forma negra a experiência humana. Cinematografando a árvore genealógica do medo, seus protagonistas comprimem-se nos obscuros bosques existenciais de um mundo absurdo e brutal. Tal ferocidade ressalta perdas (físicas e emocionais) e inseguranças da população, instigando (através da sua Arte) reflexões no progressivo extravio da nossa Humanidade.

Zodiac” encarcera as ansiedades e contradições de uma era, cogitando nas sequelas pessoais e culturais de crimes reais. O assassino do Zodíaco surgiu nos finais da década de 60, servindo-se da imprensa para espalhar um clima de terror, forçando os jornais na publicação dos seus puzzles enigmáticos. A imprensa cedeu aos seus propósitos e subitamente uma espécie de histeria Sudoku despoletou. Lentamente, com a renovação de ameaças e crimes desconexos, este assassino tomou autenticamente um Estado como refém. Fincher foca-se nas vítimas colaterais e no esvaecer destes crimes hediondos na consciência pública. Enquanto “Se7en” pulsava a urgência da captura do criminoso, “Zodiac” esfria lentamente essa premência num monumento de irresolução, emaranhando-nos no trilho incoerente que deixou este caso por resolver.



Neste exercício cerebral de multiplicidade e nuances estilísticas, impera uma disciplina circunspecta que nunca eleva a voz narrativa, pois necessita de se fazer ouvido de forma clara e cuidada. Flutuam noções de obsessão, miopia profissional e institucional, evidências descuradas e o tipo de balbúrdia que acarreta teorias da conspiração. A exposição de “Zodiac” é vividamente assente na tradicional narrativa de três actos, mas subverte a trajectória convencional da mesma. O primeiro segmento esquadrinha a manipulação dos media, o segundo acto delineia os limites dos procedimentos da força policial. Quando chegamos ao terceiro sector do filme (o drama de Graysmith), o volume de informação atingiu píncaros de exaustão, numa manobra virtuosa que nos subjuga nas camadas de dados que assolam a personagem interpretada por Jake Gyllenhaal.

O argumento de James Vanderbilt possui uma coerência excepcional apesar da complexidade e pluralidade de eventos e figuras. O arco narrativo é pronunciadamente largo, mas a sustentação dos ritmos dramáticos assegurados por uma realização confidente e por um elenco idóneo garantem uma experiência magnética. Deslizando graciosamente pela claustrofobia dos corredores da obsessão, a fotografia de Harris Savides encontra-se imbuída na atmosfera crepuscular que vaticina o precipício que aguarda os intervenientes da história. Cada plano providencia a densidade textural que o bom digital pode proporcionar, pois o objectivo de Fincher não é escavar a intimidade de suas personagens, mas observar suas digressões funcionais quando sorvidas pelas ocorrências macabras. E apelidá-lo de insensível ou desumano é ignorar o Quadro Geral, pois “Zodiac” não é apenas um Retrato, mas principalmente um Panorama. “Zodiac” revela-se uma analogia ao mundo pós-11 de Setembro, onde o inimigo é específico, mas a sua auto-projecção confere-lhe uma omnipresença mediática que dificulta a sua apreensão. É uma parábola à Idade da Informação, onde assassinos usufruem dos media, disseminando pelos canais informativos a dimensão pestilencial dos seus crimes, gerando um mito.
Seremos todos permissíveis? Ou será que o processo de perda da nossa Humanidade já se encontra numa trajectória irreversível?

8 Comments:

Blogger H. said...

Pertinente a tua reflexão final, a ponte com o hoje, embora os 70s também tivessem sido uma altura particular de "balbúrdia"...

11:31 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

A Arte sofisticada de Fincher tem o poder para inflamar múltiplas reflexões.

1:17 da tarde  
Blogger refugee said...

É um bom filme como uma trama muito complexa. Em certas alturas durante o filme ficamos perdidos e não conseguimos relacionar muitos factos. Pelo menos esta foi a minha experiência pessoal. Mas de resto tem boas representações e é um policial diferente, daqueles em que não descobrimos o assassino.

11:30 da tarde  
Anonymous jose quintela soares said...

Os seus filmes conseguem prender-nos à cadeira sem pensar em mais nada.
Porque o "pensar" fica para depois de o filme acabar.

10:43 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Refugee: Essa sensação de desnorte é uma bela manobra para nos colocar na mente de Graysmith.

José Quintela Soares: De acordo.

9:04 da manhã  
Blogger João HB said...

Eu adorei este filme, gostei mais do que do Seven, parece-me mais maduro e com um ambiente muito mais atractivo. Robert Downey Jr. está em grande e é a parte em que ele é a figura central do filme que mais me agradou.

5:25 da tarde  
Blogger Carlos Pereira said...

Embora Fight Club continue a ser o meu Fincher de eleição, este Zodiac fascinou-me do princípio ao fim. É curioso o facto de todas as críticas que li até agora usarem a palavra obsessão. De facto, diria que é mesma a palavra-chave deste complexo e magnético filme sobre a busca incessante de uma Verdade palpável. Magistral na sua criação de um tempo e de um espaço, diria que Zodiac é um dos melhores filmes deste ano cinematográfico.

Abraço Francisco ;)

9:41 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

João: E trata-se igualmente do filme mais pessoal de Fincher, realizador obcecado com a perfeição.

Carlos Pereira: A Obsessão é verdadeiramente a chave central do filme.

Abraço!

9:14 da manhã  

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