sábado, dezembro 23, 2006

"Dare mo shiranai", de Hirokazu Kore-eda

Class.:


Ninguém sabe…
ou ninguém quer saber?

Quando os créditos finais surgem na tela e desponta a informação «The Mother: You», respeitante ao nome da actriz que desempenha o papel da mãe, um sentimento de desconforto poderá fazer-se sentir. Será apenas coincidência linguística que o nome da actriz que interpreta a mãe delinquente seja You (tu/você, traduzido da língua inglesa para a portuguesa)? Até neste insignificante(?) pormenor, o tom subtilmente acusatório de Hirokazu Kore-eda fica realçado. Contudo, o filme é mais uma celebração do espírito infantil do que um ataque cerrado aos adultos. A reprimenda existe, mas encontra-se argutamente orientada para a sociedade em geral, em detrimento de individualidades específicas, como a mãe.

Dare mo shiranai” é um drama devastador, emotivo e envolvente, sobre quatro pequenos anti-heróis que tentam sobreviver num mundo que os expeliu para um canto olvidado. Ao longo de quatro estações, os quatro petizes embarcam numa odisseia progressivamente amarga, marcada por uma voraz pobreza e angústia que ameaça o colapso dos seus frágeis universos. Apesar de se inspirar num caso verídico, o filme resulta num tratado visual sobre a sobrevivência urbana na perspectiva das crianças, numa atarefada e desafogadamente hostil cidade contemporânea.

Sob plena noção do poder que o lento desabrochar de uma narrativa acarreta, Kore-eda filma com uma quietude rítmica que provoca um elevado impacto emocional na altura das revelações expansivas. Evitando sentimentalismos e investindo na subtileza, fica alojado no âmago do filme o seu potente vínculo com o realismo austero. Raramente é providenciado um sentimento de alívio, pois até nas incursões de Akira pelo seio da cidade existe um elevado contraste, onde poderosas imagens engolem o desprezado miúdo numa terra de tumulto quotidiano e auto-exposição. Enquanto nos convencionais filmes com crianças existe uma deambulação das mesmas pelo poder da fantasia, aqui são os adultos que evitam a realidade e as crianças são obrigadas a enfrentá-la na sua faceta mais crua. Abandonados, não somente pela sua mãe, as crianças apresentam uma maturação digressiva, magnificamente expressa no desempenho dos pequenos actores. Mas “Dare mo shiranai” não é depressivo de uma forma ordinária. O cineasta nipónico enfatiza na poesia, levando-nos a sentir como as crianças, experimentando com delicadeza a tristeza progressiva que lhes usurpa a felicidade incógnita, pincelando laivos de uma beleza inenarrável, no isolamento que gera a dependência mútua pela sobrevivência à qual se viram obrigadas por negligência. Pena que num planeta cada vez mais stressado, as audiências de multiplexos prefiram devorar pipocas e filmes que se limitem a contar em vez de mostrar. A indústria categoriza. O público acredita na fórmula. A indústria concebe aberrações que expõem as coisas em vez de as desembrulhar. Eles falam antes de olhar. E o público numa atitude néscia, aplaude. O público não disponibiliza tempo para contemplar… para descobrir… para reflectir… para cultivar.



O título do filme ("Ninguém Sabe") representa outro aspecto intrigante, que pelo seu carácter impreciso pode incitar reflexão. As pessoas sabem, mas não querem saber. Em vez de culpabilizar a mãe, Kore-eda ilustra uma sociedade apática que cerra propositadamente os olhos a verdades que não aguentam, nem pretendem enxergar. Sem procurar amparo no diálogo, Kore-eda revela as suas personagens, pincelando as suas emoções através de sorrisos, semblantes soturnos e trocas de olhares. Estas virtuosas escolhas estilísticas definem a sua nobre veia poética de storyteller visual. Utilizando música de forma judiciosa para assinalar pontos de luz na vida das crianças, Kore-eda favorece uma câmara estática que simboliza o universal carácter absorto, que pretende salientar o despercebimento dos momentos vividos pelas crianças repelidas. Uma das sequências portentosamente redentoras e evocativas é o passeio nocturno de Akira e Yuki, no qual paira um asfixiante sentimento de fatalidade enquanto a pequena Yuki palmilha uma linha descontínua. No aniversário da menina, o irmão mais velho Akira permite-lhe um fugaz momento de liberdade, autorizando-a a utilizar os seus chinelos predilectos (que chiam a cada passo) apesar de existir a possibilidade de ambos serem descobertos. Com apenas 12 anos, Akira demonstra assimilar algo que sua mãe jamais percepcionará: espírito de sacrifício pelos entes amados. Kore-eda é mestre nos pequenos pormenores, utilizando vários planos de mãos e pés, filmando o crescimento das plantas em contraste com o definhamento dos miúdos. A fotografia de Yutaka Yamazaki também se reveste de simbolismo no isolamento de padrões visuais (como os planos de Akira nas escadas) e na perspicaz mutação de espaços circundantes (sempre que as crianças voltam a um local familiar, este encontra-se mais degradado). Kore-eda não utiliza truques corriqueiros de câmara para que nos sintamos como as crianças (como baixar a câmara ao nível da altura dos miúdos). Ele focaliza os interesses, hábitos, explorações e práticas dos pequenos. No fundo, pequenos prazeres que equilibram os elementos melodramáticos da narrativa. Ele foca-se nos seus sentidos. Filma mãos tacteando objectos. Objectos quotidianos que se tornam amuletos da memória para os pequenos após a partida da mãe, como o boneco de Yuki que usa um fio vermelho idêntico à pulseira da mãe, tornando-o numa espécie de amoroso boneco voodoo. E mesmo a irmã mais velha, volta algumas vezes ao local onde derramou acidentalmente o verniz da mãe, para tocar e cheirar algo que a mãe usava. No final, quedamos numa raiva silenciosa pela negação de apreço a estes miúdos. Estima essa que se aloja nos nossos corações sob a forma de uma paixão avassaladora.

6 Comments:

Blogger H. said...

Este filme é poderoso. Na sua pureza, na sua pura dor ele é tremendamente humano, humanamente perturbador.
Lembro-me que chorei muito ao vê-lo. Talvez nos faz pensar nesse "You" que somos enquanto sociedade.

Excelente análise Francisco. Sentida, eloquente, poética.

Aproveito para te desejar um Feliz Natal :)

1:17 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Amanhã ainda conto colocar outro post... sendo esse natalício.

Feliz Natal para ti também! :)

4:01 da tarde  
Blogger tf10 said...

Depois deste texto já não há muito mais a dizer sobre a brutalidade deste filme! Foi na altura um dos melhores filmes do ano e se o Kore-eda nesse ano não teve a glória total, foi só porque o génio Ki Duk esteve impossivel! :)
Além do Kore-eda o outro grande destaque é sem dúvida o pequeno grande Yûya, que com esta performance começa da melhor forma um trajecto que o pode levar a ser o próximo Asano! (é o meu desejo!)

abraço!

7:21 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A tua crítica diz tudo. Este filme é lindíssimo, muito comovente. Quando vi o nome da actriz que faz de mãe, também pensei nisso que referes (de "You" poder ser uma referência ao espectador).

7:59 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Um dos melhores de 2006, e uma das boas prendas natalícias. Feliz Natal.

2:25 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

tf10: Aguardemos a sua evolução. Mas é um facto... neste filme, o pequeno Yûya cobre um raio de nuances emocionais primorosas.

Abraço!

Joana C: É desconfortante... é deslumbrante!

Peeping Tom: Sem dúvida.
Feliz Natal!

11:08 da manhã  

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