terça-feira, fevereiro 28, 2006

"Sympathy for Lady Vengeance", de Park Chan-wook

Class.:



A textura da vingança

A derradeira incursão de Park Chan-wook na sua trilogia de vinganças reveste-se de uma aura e ardor distintamente femininos. “Sympathy for Lady Vengeance” sucede à crua visão austera de “Sympathy for Mr. Vengeance” e à tremenda fábula sensorial de “OldBoy”, consumando de forma gloriosa um ensaio estilístico sobre a vingança, distribuído por três capítulos e presidido por um dos melhores realizadores contemporâneos. Construam definitivamente um altar para o cineasta e contem com o meu apoio na sua edificação. Já é mais do que altura para ser apregoada a sua excelência, evangelizada a sua majestade e iniciada a sua veneração. Park possui o engenho ideal para entreter plateias, graças ao delirante humor que incute nos seus filmes, com idênticas porções de acessibilidade e primor. Mas a densidade das mensagens que cimenta nas entrelinhas englobam profundas reflexões, elevando-o a um patamar de excelência.
Sympathy for Lady Vengeance” é a continuação da dissecação sobre a agonia e êxtase da vingança, com um nível barroco menor, mas investindo numa assoladora ressonância emocional. Torna-se mais convulso que os seus predecessores, graças a constantes flashbacks, irresistíveis flashbacks dentro de flashbacks, devaneios, emanações de cores simbólicas e cenas de completa escuridão. O filme segue a história de uma mulher (Lee Geum-ja) que só pensa em vingar-se do homem que a tramou. Para além de ter perdido a filha, a mulher passou 13 anos numa cadeia por supostamente ter raptado e assassinado uma criança e quando sai só tem uma ideia em mente: a vingança. A libertação assegura-lhe uma nova reputação graças à sua conversão ao Cristianismo, ficando creditada como uma imaculada Madalena contemporânea. No entanto, Geum-ja delineou um esquema durante a sua estadia na prisão. Será que o plano de Geum-ja lhe garantirá redenção para a sua excruciante dor, ou será que apenas lhe assegurará uma perpétua maldição da alma? Como todas as Obras-Primas da história da Sétima Arte, “Sympathy for Lady Vengeance” irá instigar a nossa meditação.



O talento de Park com os actores envolvidos nos seus projectos volta a ser asseverado. Lee Yeong-ae (Geum-ja) imprime fervor numa personagem tatuada com lancinantes estigmas emocionais. Apesar da veemente demanda vingativa que lhe eclipsa gradualmente a alma, Lee ainda exibe um coração sensível. Um facto interessante é a simetria plácida da sua face oval, assemelhá-la a uma Madonna misericordiosa. Quem escoltou a trilogia desde a sua génesis, será arrebatado pela sua conclusão, assimilando alguns gags e sendo brindado com alguns cameos. Quem tiver neste último capítulo o seu primeiro contacto com Park Chan-wook, bem… preparem o espírito para saírem da sala de cinema completamente atordoados pelo espectáculo cinemático de um cineasta que pasma a um nível sublime de excelência.

A fotografia divina pertence a Jeong Jeong-hun, numa criação sedutora que assombra e encanta em idênticas proporções. Os temas são apresentados em simbólicos brancos imaculados, vibrantes vermelhos e tenebrosos pretos. Atentem novamente a excelência da sensibilidade cinematográfica de Park Chan-wook. Deliberadamente confecciona a película com especial destaque para um trio de cores emblemáticas: Vermelho representando a ferocidade sanguinolenta da vingança, Branco simbolizando a pureza cândida e Preto caracterizando o negrume dos espíritos abominados. O arranque do filme ostenta um dos mais primorosos créditos iniciais de sempre, numa maravilhosa sequência de vermelhos intercalados com brancos e negros, lampejando simbolicamente motivos do filme. Quando Geum-ja é libertada, um grupo de pessoas trajando o vermelho e branco do fato de Pai Natal acolhe o seu regresso à sociedade. O líder do grupo oferece-lhe um prato de Tofu branco, representando o expurgar das impurezas e a urgência da limpeza espiritual, todavia Geum-ja esborracha literalmente o caminho para a redenção. O intenso vermelho da violência é deslumbrantemente substituído pelo alvor da neve branca espalhada em redor de almas flageladas. O traje de Geum-ja é igualmente emblemático. A textura do conjunto funciona como uma armadura, tornando-a soberana na sua demanda, infligindo terror em quem se intrometer na sua causa. A magnífica maquilhagem – com especial realce para a sombra dos olhos – coroa o seu uniforme de guerra e a indumentária salienta ainda o seu cariz de femme fatale (saltos altos vermelhos) e a profundidade dos seus pecados (tecido preto).



O filme amotina numa plataforma sensitiva, com o firme estilo de Park a controlar o espaço e o tempo, num sentido narrativo bem apurado. O seu fetiche por armas, lâminas e… bolos, domina massivamente a sedutora arena visual. Park Chan-wook acredita piamente que a vingança é um prato que deverá ser servido bem frio e tal como o sushi, muito bem condimentado. Ao som de Vivaldi, ministra uma excursão pelas conspurcadas artérias do coração vingativo, numa característica amálgama de admirável humor negro, horror impiedoso e fantasias surreais. Park manipula a composição e o movimento magistralmente, edificando paulatinamente a narrativa, tornando-a eloquente a um nível bem profundo. Utiliza efeitos especiais sem o objectivo de criar monstros, mas com o intuito perspicaz de gerar espaço e escavar bem fundo nas suas imagens. Mesmo quando julgamos que já expirou todos os truques graças à atmosfera de antecipação, Park surpreende com a astúcia das suas manobras, capturando imagens poderosas e invocando emoções ainda mais fortes.

Sympathy for Lady Vengeance” é um pesadelo emprenhado com uma polpa alimentícia, sem o pavor imediato de “OldBoy”, mas assente numa tensão construtiva que nos preside para uma excelsa conclusão. Chegados ao destino ambíguo, enfrentaremos o poder de uma imagem devastadora e sentimentos de inquietação mesclados com deslumbramento, provocarão um alvoroço espiritual que guarnecerá a essência de uma elevada fracção da plateia durante dias.

19 Comments:

Blogger Mário Lopes said...

Pois, nem todos têm a sorte de morar perto do Porto :| lol.

Mas quando estrear nas salas de todo o país, de certeza que vou estar numa delas :)!

Abraço

Mário Lopes aka S0LO
http://lordofthemovies.blog-city.com/

10:41 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Realmente, nestas alturas sinto-me um felizardo! :P

Abraço!

10:55 da manhã  
Blogger miguel said...

ai o fantas, o fantas... as minhas expectativas para isto estão bem já a bastantes quilómetros da superfície terrestre (é verdade que isto é a melhor coisa a surgir a seguir à invenção da roda?:-P). já agora, francisco, que achaste do three... extremes? o segmento que mais gostei foi o box.
um abraço!

11:47 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Adorei o "Three... Extremes". Vi-o no Sábado pela 1h15m e foi uma experiência magnífica. O Auditório estava quase cheio e os três segmentos envolveram a plateia. Confesso que adorei imenso o envolvente e belo "Box" de Takashi Miike, mas o meu preferido foi "Cut". Desde o primeiro segundo Park Chan-wook prende os sentidos com uma técnica absolutamente admirável, um humor refinadamente sádico e uma ironia fenomenal (tendo em conta os 40minutos). A quantidade de twists que consegue numa curta-metragem é realmente um feito genial e o humor negro (tal como em "Sympathy for Lady Vengeance") é do melhor que assisti em todas as películas que já visionei. Park é um realizador que me tem vindo a surpreender a cada nova obra. Este cineasta é mesmo um caso sério de excelência superior.

Escreverei sobre esta antologia asiática dentro de alguns dias.

Abraço!

1:47 da tarde  
Blogger André Batista said...

"Chegados ao destino ambíguo, enfrentaremos o poder de uma imagem devastadora e sentimentos de inquietação mesclados com deslumbramento, provocarão um alvoroço espiritual que guarnecerá a essência de uma elevada fracção da plateia durante dias."...

WOOW

Ler as tuas análise é uma coisa fascinante :D Continua assim

2:23 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

Yeps! Temos aqui um artista literário ;)

Quanto ao Park Chan-wook, já sabemos muito bem que há-de ser extraditado para Hollywood nos próximos tempos... É uma questão de tempo, onde só espero não se afigurar um desastre.

Mixa!

2:40 da tarde  
Blogger r.b.S said...

Viva...

Destaques do meu blog para o mês de Março:

-Já esta semana um pouco de funk com Lefties Soul Connection.
-Ainda ao longo do mês: Nostalgia 77, Jay Dee, Twinset, Isar Gold, Tosca, Alif Tree, entre outros!

Convido os autores e leitores desde blog a visitarem:

http://rbs1.blogspot.com


O vosso blog já faz parte da minha lista de "Blogs da Concorrência", se gostarem do meu blog, ponham um link do vosso para o meu (caso ainda não tenham).
Obrigado!

Abraço!

3:52 da tarde  
Blogger miguel said...

é de facto fascinante também o segmento de park chan-wook. mesmo assim o segmento que menos me agradou foi o dumplings. não achei nada de especial, e chegou a meter-me bastante nojo. por isso sou apologista de que three... extremes não deve ser tido em conta como um filme mas como três. até porque a junção dos três não faz muito sentido, quanto a mim. como disse, o segmento box é o meu preferido. arrepiantemente belo.
um abraço!

p.s: desculpa lá este pequeno aparte, já que seria suposto falar-se aqui de sympathy for lady vengeance.

4:33 da tarde  
Blogger H. said...

estou mesmo muito curiosa para o ver no cinema! sei que passou no Fantas mas desconheço possível data de estreia nacional...

9:03 da tarde  
Blogger cine-asia said...

Vejam as reviews ao Three...Extremes e ao Sympathy For Lady Vengeance no cine-asia e comentem por favor.

Já agora, aproveito para referir que o segmento Dumplings na sua versão de longa-metragem (cerca de 90 minutos)vai passar no fantas (ou já passou). è bastante pertutbador e a curta omite bastantes coisas que se entendem com a duração total dos 90 minutos. No entanto, não há dúvida que o segmento Cut é o melhor dos três. Park Chan-Wook não desilude nunca...!

Cumprimentos,

Sérgio Lopes

10:24 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

André Batista: Muito obrigado pelo apoio.
Cumprimentos.

Edgar: Espero bem que não ocorra nenhum desastre, se tal mudança se verificar.

R.B.S. Aqui fica a publicidade.

Miguel: Os três segmentos podem aparentar disparidade, mas existem várias linhas a uni-los. Entre Sexta ou Sábado colocarei no blog a minha análise.
Abraço!

Helena: Quanto ao seu lançamento nacional desconheço datas. Mas nas suas duas exibições, o filme culminou sempre com uma salva de palmas.

Sérgio: Como sabes, já li as tuas análises. Quanto a "Dumplings", digamos que é um bem elaborado trailer para a sua longa. A fotografia de Doyle é genial.
Abraço!

12:55 da tarde  
Blogger André Carita said...

Francisco, apenas vi a classificação que deste. Não vou ler a tua crítica para tentar ver o filme no mesmo patamar que vi o OldBoy... ou seja partir do 0! :)
Um abraço!

2:10 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

É uma opção que respeito imenso.

Abraço André!

7:36 da tarde  
Blogger nuno said...

parece-te q devo ver o Mr. antes de ver o Lady? eu sei que entretanto já vi o oldboy e q n têm nada a ver, mas é só uma opinião q te peço;)

8:44 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Não necessitas do "Mr. Vengeance" para disfrutar de "Lady Vengeance". As diferenças seriam a assimilação de alguns gags e o reconhecimento de cameos, para além da absorção completa do ensaio de Park Chan-wook.

9:27 da tarde  
Blogger outro~ said...

parabéns pelas críticas. literariamente belas...

[180min.wordpress.com]

12:03 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Muito obrigado.
O teu espaço é bastante interessante. Lá pedes desculpa pela simplicidade, mas agradou-me imenso o aprumo.

1:06 da tarde  
Blogger Lisarbinha said...

Olá!

Assisti hj, procurei o título e achei teu blog...

Gostei de lê-lo, tanto qto apreciei ver o filme.

um abraço e, se me permites, vou colocá-lo entre meus preferidos...

2:23 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

É um filme inesquecível!

9:39 da tarde  

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