sexta-feira, março 10, 2006

"Pi", de Darren Aronofsky

Class.:



Convulsões existenciais

Pi” não representa a forma correcta para redigir o título deste filme de Darren Aronofsky. No título original figura um símbolo que identifica a 16ª letra do alfabeto grego ou a constante matemática que designa a razão entre o perímetro e o diâmetro de uma circunferência. Tal como o valor matemático de Pi (3.1415 prolongado ao infinito, sem repetir um padrão), o filme gera uma incessante especulação e magnetismo. Pitágoras foi um dos primeiros sábios a considerar que o mistério dos números oculta enigmas universais. Desde então, vários espíritos ávidos por conhecimento desenvolvem teorias com base na Numerologia e Aronofsky propõe-se a esquadrinhar a obsessão humana tendo como pano de fundo esta bruma existencial.
Apesar de figurar um símbolo no título, este filme não recebe a má reputação de “$”, o fiasco financeiro e qualitativo de Richard Brooks, que posteriormente foi intitulado de “Dollars” e por último “The Heist”. “Pi” coloca densas questões ao espectador numa jornada pelo abismo da obsessão, mas também poderá ser “tranquilamente” sorvido como um thriller, graças às suas batalhas psicológicas e às figuras sombrias do submundo conspirativo. Neste peculiar espécimen de horror psicológico expressionista, o jovem matemático Max Cohen (Sean Gullete) está convencido da existência de uma correlação deliberada entre padrões matemáticos e padrões existenciais. Max é um homem brilhante e atormentado, que está prestes a fazer a mais importante descoberta de sua vida. Durante os últimos dez anos, tenta descodificar o padrão numérico do maior sistema do caos ordenado: o mercado de acções. À medida que se aproxima da solução, o caos vai engolindo o mundo à sua volta. Perseguido por uma agressiva firma da Wall Street determinada ao domínio financeira, bem como por uma seita que tem a intenção de desvendar os segredos dos seus antigos textos sagrados, Max corre para descobrir o código, esperando resistir à loucura que o assola.

Vivemos numa era em que mentes inventivas brotam parte dos superiores filmes de ficção científica com base em admiráveis ideologias narrativas. No rescaldo da exacerbada manifestação de filmes sci-fi pós-trilogia original “Star Wars” (sendo uma elevada percentagem autêntico lixo), começam a despontar Obras-Primas de cineastas privilegiando ideias em detrimento de aparatosos efeitos especiais, como Proyas em “Dark City”, Shyamalan em “Signs” ou Kelly em “Donnie Darko”. Aronofsky forja com um orçamento indie um singular universo que surge na referida vaga.


As metáforas capturadas numa alucinada montagem encontram-se derramadas através do profundo simbolismo da película, quer entre espirais de fumo do tabaco ou nas espirais de leite dissolvendo numa chávena de café. Para fortalecer o significado circular do título, quase tudo no filme recebe infusões espirais e o próprio protagonista é sugado numa espiral de demência e alienação. Mas a perspectiva matemática desta Obra-Prima representa essencialmente os alicerces para a exploração construtiva dos limites criativos de Aronofsky: o génio que anos mais tarde nos presenteava com uma inquietante viagem às funduras do desespero e da auto-destruição: “Requiem for a Dream”. Quantos cineastas possuem instintos cinematográficos que transformam o simples acto de uma pessoa escrevinhando números, numa cena que acondiciona tensão equivalente a uma centena de perseguições automobilísticas?

Sean Gullete desempenha Max num consistente nível de afinação, com a gélida configuração de um intelecto superior, emanando ansiedade através das manifestações físicas e anímicas de alguém que procura condensar em padrões algorítmicos a realidade que o envolve. Quando sofre os ataques convulsivos sentimos uma surreal vibração dirigindo-se ao nosso encontro. A composição electrónica de Clint Mansell é perfeita para a disposição alucinada do filme e Matthew Libatique capta tudo numa cremosa fotografia preto e branco, extraindo uma significativa porção de cinzentos e deixando preciosos fragmentos para acentuar subtilmente as ideias de Max, a sua desorientação espiritual e o desespero da sua excursão psicológica. Aronofky adopta igualmente a bizarra Snorri-Cam (câmara firmada no corpo de um personagem) providenciando o auge da subjectividade para imergir o espectador no universo caótico da personagem.



Darren Aronofsky gera um embrião peculiar, apesar dos reflexos kafkanianos, da ficção científica de baixo orçamento e intensa agonia de “Tetsuo” de Shinya Tsukamoto, das reminiscências do perturbador “Eraserhead” de David Lynch, bem como do suspense paranóico de “Jacob’s Ladder”, o brilhante filme de Adrian Lyne que representa um dos mais assustadores retratos da vida citadina. “Pi” é uma obra ambígua com doses avultadas de estilo e substância. Graças ao trabalho de câmara, à iluminação dos cenários, à fotografia repleta de contrastes e à edição frenética, depressa sentimos uma inesperada urgência de ar nos pulmões. Ao utilizar 8mm durante uma bela porção da película e acrescentando a fotografia a preto e branco, Aronofsky remete-nos para um assombroso ambiente de pesadelo, numa críptica demanda pela paz interior. Colocando em evidência a eterna contenda entre ciência e religião, Aronofsky explana a sua leitura da tumultuosa conjuntura mundial. Independentemente da subscrição de tal conspecto, cada linha de diálogo está envolvida num potente significado e todas as forças do filme convergem para um final poderoso. Apesar de arrevesado para muitos, existe uma fenomenal costura dos fios surreais que unem o conto.
Pi” foi concebido com apenas 60000 dólares (sensivelmente o mesmo que Spielberg gasta a publicitar um filme) e Aronofsky foi laureado como Melhor Realizador no “Festival de Cinema de Sundance” em 1998. O filme impregna-se no espectador como um sonho febril, distorcido com imagens intrincadas que reflectem a mente paranóica de um indivíduo. O fervor idealístico que assinala as incursões iniciais de cineastas promissores extravasa em cada milímetro desta película. Paira a aura da hiperbólica energia cinematográfica de um realizador académico, mas o resultado final é uma consistente meditação sobre a existência e respectivas depressões febris, aprumada com fracções de genialidade numa primorosa paleta que congrega paixão (pelo conhecimento), amor (por uma entidade divina), dor, voracidade e conflagrações intelectuais.

26 Comments:

Blogger André Batista said...

Nunca o vi, mas parece que não é para perder ! Talvez o alugue brevemente. Cumps :D

10:49 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Aluga sem receios. É um filme imperdível de um cineasta que promete marcar um espaço bem notório na história do Cinema.

Cumprimentos.

10:57 da manhã  
Blogger Mário Lopes said...

Ah, o famoso "Pi" do Aronofsky :)! Dele ainda só vi o espectacular e perfeito "Requiem For A Dream". Por isso, deste "Pi" só posso esperar um excelente filme.

Boa análise :)!

Abraço,

Mário Lopes
http://lordofthemovies.blog-city.com

11:03 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

São dois filmes que me arrebataram. Daí "The Fountain" ser porventura o filme que mais aguardo este ano.

Abraço!

11:14 da manhã  
Blogger Pedro said...

Já vi o filme. É bastante bizarro e até inquietante, mas indiscutivelmente fascinante. Aronofsky devia filmar mais... Um abraço.

pipocarasca.blogspot.com

9:03 da tarde  
Blogger membio said...

um dos meus top 10 filmes da minha vida, verdadeiramente surreal...

10:59 da tarde  
Blogger H. said...

vão-mo emprestar daqui a pcos dias. se a curiosidade era já imensa, depois de ler a tua análise cresceu ainda mais! ;)

11:00 da manhã  
Blogger André Carita said...

Também já ouvi falar muito bem desta obra, e depois de mais uma crítica bastante favorável torna-se obrigatório deitar os olhos a este PI (já agora uma correcção: o valor do pi é "3,1415..." :P)
Um abraço!

4:07 da manhã  
Blogger nuno said...

de facto este filme tem os ingredientes todos de um filme de culto. mt bom o efeito da "steadycam" ao peito, q mais tarde volta a utilizar no requiem.

francisco, o spielberg gasta 10 mil contos a publicitar um filme?:) só se foi no munich, por ter "prescindido" da publicidade.

o signs nem comento:)

excelente descrição da esquizofrenia do filme! cumps

12:50 da tarde  
Blogger Duarte said...

É um filme que deixa o espectador atarantado...no bom sentido! Obrigatório !

1:03 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Pedro: É sempre bom quando os cineastas não se regem por datas comerciais. Mas filmes da qualidade daqueles que Aronofsky oferta são sempre de desejar.
Abraço!

Membio: Uma maravilha.

Helena: Vais passar um belo bocado, aquando do seu visionamento.

André Carita: Arredondei o valor, mas já que insistes... vou emendá-lo... :P
Abraço!

Nuno: Aparentemente, acho que ficarias pasmado se verificasses quanto Spielberg já gastou na publicidade de seus filmes. E já agora... se Spielberg prescindiu da publicidade a "Munich" sendo capa da Times, vou ali e já venho...
Cumprimentos.

1:10 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Duarte: A ver, sem reservas. Uma bela massagem cerebral.

1:11 da tarde  
Blogger nuno said...

pois... por isso usei as aspas no "prescindido". fiquei pasmado com os 10 mil contos em publicidade por filme:) acreditas nisso sinceramente?

1:27 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Claro que sim... é um facto.
"War of the Worlds" foi o recente exemplo.

1:56 da tarde  
Blogger nuno said...

War of the Worlds
Without Advertising: $182 million. With Advertising: $230 million.

devemos estar a falar de coisas diferentes, só pode!

3:31 da tarde  
Blogger nuno said...

ou então estamos a falar do mesmo sem nos entendermos:)

3:46 da tarde  
Blogger nuno said...

agora q voltei aqui é q vi a ironia nas tuas frases:) eheheh n ligues francisco;)

já agora q te pareceu o cypher do vincenzo natali? eu confesso q apanhei uma grande seca qd o vi no cinema, mas penso q o registo se enquadra nesses exemplos q deste do darko e do dark city.

6:28 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Ainda bem que já me entendeste. ;)

Quanto ao "Cypher"... bem, o Natali possui um culto incrível no FANTAS, mas pessoalmente não sou um dos seus adeptos fervorosos. É bem verdade que o filme em questão gera universos semelhantes a "Donnie Darko" e "Darko City", mas a consistência da manipulação no filme de Natali é fraca. As ideias são muitas, mas a apresentação é pouco clara, desorganizando o rumo da exposição em desorientações incoerentes. É como um gato brincando com um enorme novelo de fio, divertindo-se durante um tempo, mas acabando por se emaranhar na longa fiada.

Cumprimentos.

7:17 da tarde  
Blogger André Carita said...

consegui emendar o francisco!!! :D eheheh! tava só a ser a meter-me contigo! :)
Quanto ao cypher que abordaram aí nos comentários tenho a dizer que, na minha humilde opinião, ficou muito aquém da sua obra-prima "Cube", esse sim é para mim uns dos melhores filmes alternativos que vi nos últimos anos!
Um abraço!

12:23 da manhã  
Blogger nuno said...

mt boa a metáfora do gato e do fio. aplica-se perfeitamente. por exemplo nesse filme penso q uma maior produção teria sido benéfica. curioso. cumps.

8:40 da manhã  
Blogger gonn1000 said...

Não vi, mas desperta curiosidade, ou não fosse do realizador do brilhante "Requiem for a Dream".

10:40 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

André Carita: O "Cube" não me arrebatou assim tanto, mas é um exercício interessante.
Abraço!

Nuno: Por acaso tocaste num ponto nevrálgico. Concordo contigo.

Gonn1000:Aconselho vivamente.

1:27 da tarde  
Blogger Paulo said...

É uma obra de deixar qualquer um de boca aberta. Não atinge o brilhantismodo Requiem, mas é ainda assim uma coisa a roçar a genialidade, especialmente se atendermos ao orçamento e às condições gerais em que foi feito. E nem me chateia muito Aronofsky ficar uns tempos sem filmar, se todos os seus filmes vierem a ter esta qualidade :-)

4:34 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Ora nem mais. É uma versão abreviada de Terrence Malick com os seus períodos de gestação. Os filmes demoram, mas são fenomenais.

8:47 da tarde  
Blogger My@Ozalots said...

Foi o último filme de Darren que eu vi, ironicamente. Deu um trabalhão para encontrá-lo! Mas não pude parar de ver um só instante! Incrível!!!!!!!!!

Só teve uma falha pra mim... Na abertura do filme eles começam a escrever o número 3.14... Só que a partir de determinado tempo eles repetem o 3.14... e assim vai!!!

A matemática é infinita, mas os computadores são fisicamente finitos!

Uma bobagem claro, só uma louca como eu pra notar! LOL!

4:05 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Um filme imperdível para quem deseja conhecer Aronofsky a fundo.

10:03 da manhã  

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