segunda-feira, março 06, 2006

"Good Night, and Good Luck.", de George Clooney

Class.:



Baforadas intelectuais num meio decadente
Nuvens de fumo de tabaco, espectros de moralidade individual e uma aura de medo, pairam na densa atmosfera de “Good Night, and Good Luck”. Após tropeçar nas suas ambições com o inconsistente “Confessions of a Dangerous Mind” (curiosamente sobre outro ícone da televisão americana – Chuck Barris), o segundo filme de George Clooney na cadeira de realizador é uma obra de época, que funciona como um pujante aviso intemporal acerca da conjuntura de princípios nos media.

Mais do que uma homenagem à coragem estóica de um grupo de jornalistas que recusou ser dissuadido da sua incumbência para com o público, “Good Night, and Good Luck” é um autêntico tributo à verdade. Tendo como pano de fundo o conflito entre o medo corporativo e o sólido jornalismo de informação, o filme retrata o conflito da década de 50 entre o pivot da CBS, Edward R. Murrow e o senador americano do Wisconsin, Joseph McCarthy. Forte nas suas convicções, Murrow decidiu alertar a população americana contra um episódio negro de «caça às bruxas» perpetrado por McCarthy numa infame campanha contra quem ousasse questionar as suas decisões, rotulando-os de comunistas.

George Clooney move-se com admirável rapidez e economia num ritmo preciso, dirigindo com pulso firme, sem perder o foco do seu alvo. As decisões tomadas ao longo do projecto serviram sempre de forma magistral as nuances relevantes da exposição. A utilização da montagem de filmagens de arquivo relativas a McCarthy para o caracterizar, ao invés da escolha de um actor, revelou-se uma decisão sensata e astuta. Poucos conseguiriam capturar de forma convincente os sentimentos que o Senador transmitia, quer na mistura volátil de ameaça e gabarolice, quer no nervosismo arquejante face à confrontação de Murrow. A escolha do actor que representa Murrow foi outro golpe de mestre. Após o aliciamento inicial de adoptar o papel de protagonista, Clooney entregou-o a David Strathairn. O desfecho é categórico resultando numa das melhores interpretações do ano, repleta de carisma intelectual. Uma centelha de raiva ardia em Murrow e Strathairn mostra-nos a labareda. Por vezes o filme arrisca tornar Murrow demasiado icónico, mas o magnetismo de Strathairn suplanta essa conjectura, conseguindo praticamente legendar a essência de um indivíduo através do seu olhar intenso, das baforadas de fumo e na elegante dicção, reproduzindo os característicos compassos vocais de Murrow.
Em determinadas alturas, sentimentos de leccionamento poderão assombrar o espectador, numa sobreposição de sermões sobre diálogos. Contudo, “Good Night, and Good Luck” é visualmente aprazível, valorosamente interpretado, narrativamente envolvente e profundamente comprometido com temas de urgência sócio-jornalística, que incitam digestões psicológicas na audiência. De forma arrojada, Clooney engendrou um drama de ideias que funciona como entretenimento enleante, numa batalha pela (re)conquista da alma americana através de um choque de valores sobre debates intelectuais críticos.

Irrepreensivelmente, o filme não sacrifica a elegância e a destreza no zénite das suas convicções inflamadas. Clooney decalca com probidade técnica o período em questão e o seu director de fotografia, Robert Elswit (colaborador assíduo de P.T. Anderson), capta tudo num viçoso preto e branco, permitindo o luxuriante adorno de fumo e sombras bruxuleantes. O filme é entretenimento maduro com requintado sentido histórico e estilístico. Mesmo sem uma única filmagem no exterior, Clooney consegue transmitir o clima furtivo da época. A gravidade da situação é enfatizada na reprodução da claustrofobia do universo insular de um estúdio de televisão e a tensão emocional é apenas aliviada pelas ondas sonoras do jazz de Dianne Reeves. A ênfase colocada no facto de praticamente todos fumarem, para além de evidenciar o clima de tensão, funciona como um subtil paralelismo nos malefícios que McCarthy trouxe à nação.

As implicações e vínculos com o panorama sócio-político actual são incontornáveis. Como o filme faz questão de salientar, a contenda de Murrow não era contra o anti-comunismo. O que o apoquentava era a impostura de McCarthy na sua campanha de intimidação e intrujice, erigindo uma onda nacional de paranóia. De igual forma, o debate hodierno atiçado por alguns, visa desmascarar os logros perpetuados por Bush e companhia, enquanto direitos constitucionais são tratados em nome de um apelidado «Acto Patriota». Clooney sacudiu o pó da história televisiva que os americanos ainda recusam comentar quando estão decorridos 50 anos (!!), para expor a decadência e indulgência das notícias contemporâneas, ainda mais dispostas a prostrar os seus serviços em prol de corporações, publicitários e da própria Casa Branca. Apesar do intervalo de meio século, as insinuações de Bush, acusando quem discorda das suas tácticas políticas de falta de patriotismo, ecoam perceptivelmente as estratégias do McCarthismo. A relevância na polarizada atmosfera política contemporânea é cristalina, numa altura em que o clima de suspeição relativa a políticos asfixia populações e peões cobardes infestam os nossos meios de comunicação social servindo interesses político-partidários numa crescente vaga de informações escapistas, bolorentas e oblíquas. Um facto igualmente lamentável é constatar como o público contemporâneo se marimbaria para alguém com a integridade intelectual de Murrow. Apesar do filme tentar invocar memórias de um tempo no qual o intelecto predominava na consciência social, vivemos numa era pautada por cidadãos que apenas desejam entretenimento, consolidando o estrabismo provocado pela mediocridade sensacionalista.
Murrow acreditava que a televisão poderia iluminar o povo da mesma forma que o entretia, providenciando espectadores com o conhecimento necessário para os tornar cidadãos despertos. “Good Night, and Good Luck” era a frase utilizada por Murrow na conclusão do seu programa televisivo e imprime no filme um timbre melancólico. As batalhas travadas pelo pivot televisivo não foram vencidas de forma perpétua e cada vez se vislumbra menos paixão, integridade e bravura nas recentes gerações jornalísticas. Como tal, necessitaremos de toda a sorte do mundo para sermos nutridos com a verdade, quando hierarquias superiores tentarem adormecer-nos na pantanosa noite da mentira.

7 Comments:

Blogger Mário Lopes said...

Um filme extremamente bem conseguido e injustiçado na cerimónia dos Óscares :|.

Tudo aquilo que Murrow dizia, dá que pensar!

Abraço

Mário Lopes aka S0LO
http://lordofthemovies.blog-city.com

4:42 da tarde  
Blogger André Batista said...

Mais um filme que está na minha 'agenda'. Talvez o veja amanhã :) Cumprimentos

6:08 da tarde  
Blogger nuno said...

mário n pensavas nessas coisas antes de ouvires da boca do murrow?;)

francisco: este é um filme-ornitorrinco! mamífero e ovíparo num só;) boa análise

10:19 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Mário: Concordo. É um dos bons filmes deste início de ano.
Abraço!

André Batista: É uma boa escolha.
Cumprimentos.

Nuno: Essa é talvez a melhor definição que li para este filme. ;)

1:44 da tarde  
Blogger Mário Lopes said...

Resposta ao Nuno: Claro que já pensava nisso antes, mas o que eu queria dizer foi que este filme serviu para imortalizar o grande humanista que foi Edward Murrow e todas as suas palavras :).

Abraço

Mário Lopes
http://lordofthemovies.blog-city.com

2:31 da tarde  
Blogger H. said...

É muito bom e ficou a ver passar a merecida estatueta para melhor fotografia.
De facto, num tempo reduzido e com muito ritmo, é-nos contada uma história com conteúdo e por actores competentes. Não fiquei tão maravilhada com a performance de David Strathairn como tu, mas apesar de tudo, no conjunto todos estão bem.

A minha análise para mto breve!

7:10 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Acho que o reduzido tempo abonou em favor da excelência do filme. Clooney tornou-o tenso, objectivo e muito bem articulado. Muito bom!

10:11 da tarde  

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