quarta-feira, junho 01, 2005

“Fight Club”, de David Fincher

Class.:


Mischief. Mayhem. Soap.

Esmurraram a minha rotina, amotinaram a minha mente cinéfila, sovaram-me brutalmente deixando um estigma que jamais desejarei que feche. “Fight Club” socou-me e fez jorrar todo o sangue podre, acumulado ao longo de várias películas estéreis. “Fight Club” é demente, divertido, uma brutal exploração do machismo, onde David Fincher ironiza com referências pós-modernas e estilo, o género de vida americano (e até mundial) de uma maneira jamais visionada desde “Dr. Strangelove” de Stanley Kubrick.

Sobre o argumento de Jim Uhls, que é a adaptação de um livro de Chuck Palahniuk, deixem-me apresentar-vos o filme da melhor forma que encontrei: és jovem, tens um emprego de escritório onde és bem remunerado. Tens um apartamento com mobília sueca, mesinhas de café artísticas e um frigorífico bem recheado. No entanto sentes um vazio emocional e espiritual. Encontras conforto ao frequentar reuniões de apoio para vítimas de leucemia e cancro, quando nada de errado se passa com a tua saúde e nesses grupos confrontas outra pessoa falsária. Por fim encontras Tyler Durden, um homem que te mostra como não só podes viver sem bens materiais, como também a auto-destruição, o colapso da sociedade e a produção de dinamite a partir de sabão, podem não ser, afinal de contas, tão más ideias.



David Fincher (“Alien 3”, “Seven”, “The Game”, “Panic Room”) tornou “Fight Club” uma Obra-Prima visual com o seu estilo obscuro e frenético, onde pouco tempo nos é oferecido para reflexão. O forte elemento de sátira e comédia negra imortalizam igualmente o filme. O humor macabro, a violência e a imprevisível narrativa sublinham o arguto e profundo testamento sobre a sociedade moderna. “Fight Club” é igualmente o retrato psicológico detalhado do homem alienado, insatisfeito e confuso. Sim… o filme é profundamente brutal a nível visual e psicológico, mas esse é o preço que pagámos pelo raro filme que recusa abandonar o nosso pensamento durante dias, pois além da perspicaz mestria de Fincher, e das interpretações de topo de Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter, existem cenas jamais filmadas anteriormente que persistirão na nossa memória. O propósito de Fincher ao evidenciar toda esta polpa sangrenta é cravar perpetuamente no âmago das audiências a bestial natureza do homem. À medida que o filme avança, Fincher acentua sistematicamente uma espiral que descende ao crepúsculo da mente humana, ao fulcro da loucura.

Com uma aproximação visceral, um argumento envolvente, e um poderoso recado social, “Fight Club” é um dos melhores filmes da década de 90. Numa era em que poucos filmes deixam um impacto intemporal, “Fight Club” recusa ser ignorado e ao invés dos thrillers modernos, consegue deixar as audiências ponderando e debatendo sua mensagem. Repleto de material provocador com substância, que funciona a diversos níveis, “Fight Club” embargou críticos agitando costumes e velhos hábitos sedentários de pensamento, e provocou diversas conversas de tertúlia pós-visionamento.
David Fincher criou um tremendo filme de culto, com uma tremenda mensagem, numa película com um tremendo twist (um dos melhores de sempre).


“Fight Club” não é a glorificação da violência… essa é uma afirmação ingénua, uma imprevidente baboseira proferida por mentes limitadas e exíguas. Numa altura em que ingénuos seres teimam em colorir o nosso mundo decadente de cor-de-rosa, Fincher oferece um retrato límpido, real e descomprometido, que perturba pois desafia o rotinado humano, inactivo e paralizado de pensamento, deambulando qual zombie ao sabor do quotidiano social. “Fight Club" é sobre submissão, sobre a adulteração provocada na identidade humana pela inquietante sociedade de consumo. A arrojada, subversiva, intoxicante, obscura e excelsa forma como Fincher exibe o seu recado de submissão é deveras mais chocante que qualquer uma das sequências de luta expostas na fascinante e importante obra cinemática. David Fincher criou uma Obra-Prima contemporânea e explanou a sua perícia enquanto um dos superiores realizadores dos últimos anos.
A Arte não incita violência. A arte não inspira violência. A Arte é o espelho da sociedade. O filme analisa a violência, disseca as raízes da frustração humana. E uma cultura que se negue e condene examinar a violência, é deveras irresponsável, alarmante e aterradora. Tyler Durden (Brad Pitt) anunciava aos restantes membros do clube que a primeira regra do Fight Club era: “You do not talk about Fight Club”, e a segunda era: “You do not talk about Fight Club!”. Esqueçam a inexequível regra, “Fight Club” perdurará indeterminadamente nas bocas cinéfilas.

12 Comments:

Blogger gonn1000 said...

Excelente filme, o melhor de David Fincher...

11:49 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

"Se7en" e "Fight Club" enchem-me igualmente as medidas, mas... "Fight Club" é hoje para mim algo de transcendental. É um filme arrasador e cada vez o aprecio mais!

7:30 da tarde  
Blogger Knoxville said...

Pois, eu contrário de vocês (e da maioria), preferi Se7en e The Game a Fight Club.

Mas tudo têm uma explicação... o facto de andar sempre por tudo o que é blogs, sites, revistas etc... de cinema fez com que na altura uma ou outra critíca espertalhona, conseguisse fazer escapar o "twist" do filme, o que tirou bastante da piada aquando do visionamento do mesmo.

Só por isso este filme não me marcou. Mesmo assim gostei bastante.

Um abraço.

9:08 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Realmente é mt mau qd revelam spoilers, mas mesmo agr a cada novo visionamento, aprecio mais a maravilhosa película.

Abraço.

10:22 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Fight Club é a obra prima fundamental de Fincher. É uma receita social de como são criados os Timothy McVeys e os unabombers. Um homem perdido numa sociedade que lhe mente dia após dia, hora após hora, com floreados e perfumes. E este é o mundo em que tem de viver, esta é a vida dele. "this is your life, and it's ending one minute at a time." Este aviso de "somos mortais e o nosso relógio não pára e temos de fazer algo com as nossas vidas que valha a pena". É esta a tónica por trás da necessidade do Fight Club. "Estou farto de mentiras e quero vingar-me da sociedade e do status quo que me prometeu o estrelato e a vida à farta enquanto eu cresci mas que agora esfrega insucesso e antipatia na minha cara". É cuspir no sonho americano, porque o sonho americano é uma miragem materialista -"advertising had us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don't need! We're the children of the middle of history, men. We gota no purpose or place. We have no great war, no great deppression. Our great war is a spiritual war, our great deppression is our lives".

IN TYLER WE TRUST

Ricardo valadares

9:57 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

É uma imponente Obra-Prima!

11:30 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Simplesmente o melhor filme até hoje feito...
Diogo Guerra Bombarral

12:45 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Certamente um dos melhores.

12:59 da tarde  
Blogger Zé do Telhado said...

Este comentário foi removido pelo autor.

8:21 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Fincher é imenso.

9:19 da manhã  
Blogger Cataclismo Cerebral said...

Fincher é um senhor realizador, disso não haja dúvida. Este filme explora de forma exímia as fobias do homem contemporâneo e uma certa apatia social. Depois, há a questão do materialismo como fonte de gratificação individual e social. Mas, na verdade, o que eu considero fascinante neste filme, é a moral que encerra: a de que qualquer organização (com princípios algo extremos e nada convencionais) pode facilmente desvirtuar os seus objectivos e os fundamentos da sua existência. É isso que admiro nesta obra e que está muito bem desenvolvido. 5 estrelas.

Abraço e continua

5:50 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Memorável!

Abraço!

9:28 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home

Site Meter