domingo, janeiro 29, 2006

"The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe", de Andrew Adamson

Class.:



O evangelho segundo C.S. Lewis

Projectando a reconstituição de glórias passadas, a Walt Disney Enterprises contratou um dos responsáveis pelo repelão que sofreram do Olimpo da Animação: o realizador dos dois filmes de Shrek, Andrew Adamson. Para financiar o projecto como “produtor silencioso”, surgiu o abastado Philip Anschutz, forte apoiante de Bush e apologista de entretenimento socialmente conservador. “The Lion, the Witch and the Wardrobe” promete uma excursão por um mundo imaginário aflorado por questões entre bem e mal, vida e morte, confiança e traição, mas o resultado final é um filme que simula uma aula de catequese com animais falantes, manipulado por produtores jactanciosos que passam mensagens sub-reptícias: a expressão «Aslan is on the move» aproxima-se de forma inquietante, do axioma presidencial americano «Freedom is on the march». Infelizmente, ainda existem responsáveis da Sétima Arte que confundem jornada mitológica, com jornada teológica.
"The Lion, the Witch and the Wardrobe" representa a primeira de sete incursões num universo paralelo denominado Narnia, trespassado ocasionalmente por crianças do nosso mundo. O que distingue o trabalho de C.S. Lewis dos restantes romances do género fantástico é o seu evidente simbolismo religioso, revelando a sua faceta de cristão devoto, responsável por vários trabalhos teológicos. A narrativa segue as aventuras de quatro crianças (Peter, Susan, Edmund e Lucy) que durante a Segunda Guerra Mundial são deportadas de Londres para a casa de um excêntrico professor. A vida na casa torna-se enfadonha até que Lucy descobre um guarda-fatos que serve de portal para um mundo mágico chamado Narnia, onde os animais falam e são governados pelo imponente, majestoso, sábio e benevolente leão Aslan. Depressa as crianças se apercebem que nem tudo decorre bem em Narnia. A terra encontra-se num perpétuo Inverno criado pela malvada Rainha Jadis, que transforma todas as criaturas desobedientes em estátua. As crianças juntam-se a Aslan e seus fiéis animais, para tentarem derrubar a Perversa Rainha e dissolver o Eterno Inverno.

Os efeitos especiais são soberbos, garantindo o nobre desenlace plástico do filme e apenas um par de interpretações acompanha a excelência de Tilda Swinton. James McAvoy desempenha de forma idónea o fauno Mr. Tumnus (personagem digital da cintura para baixo) e Georgie Henley (a pequena Lucy) é o coração do filme, graças à sua ternura, curiosidade expressiva e irresistível sorriso que funciona como um autêntico triunfo na dentição britânica. Contudo, é Tilda Swinton (Rainha Jadis) quem impera numa sublime interpretação glacial, que representa um prodígio de ameaça contida. Mesclando uma exasperação arrepiante, um divertimento gélido e uma cólera árctica, Swinton ministra um soberbo desempenho, congelando os miúdos, anões e personagens CGI que a circundam.



Um vasto rol de comparações foi apresentado entre a trilogia “The Lord of the Rings” e Narnia, tendo como base a amizade entre Tolkien e Lewis, a participação da Walden na concepção plástica e o próprio género cinematográfico. No entanto a sumptuosidade da obra literária de Tolkien e da excelsa adaptação cinematográfica de Peter Jackson, remetem Narnia para a sombra da colossal Middle Earth. Aliás, Narnia aparenta a dimensão de uma pequena nação que poderia ser atravessada em alguns dias, nunca adquirindo a intensidade cartográfica do delineamento redigido por Tolkien e exposto por Jackson.

O realizador Andrew Adamson participa no seu primeiro filme com imagens reais após os dois Shreks, numa transição algo facilitada tendo em conta a elevada fracção de personagens CGI. As cenas são delicadas, com uma centelha de imaginação infantil, mas a audácia é praticamente nula, empalidecendo tremendamente ao lado de um “The Wizard of Oz” ou da trilogia do Anel. Adamson tornou o filme derivativo e genérico ao colocar ênfase na espectacularidade, investindo pouco no charme que representa o ponto forte da fábula, bem patente na encantadora interacção de Lucy com o fauno Mr. Tumnus.

“The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe” é uma fiel adaptação cinematográfica da imortal obra literária de C.S. Lewis, mas sofre do mesmo estigma que delimita a obra literária. O conto possui brilhantes alicerces de fantasia, que acabam por descambar numa irritante tendência para a pregação religiosa. No final fica a insípida sensação de ter sido evangelizado, em vez de ter vivido o sonho de deambular num extraordinário cosmos. As amplificações doutrinais restringem a própria ficção. Narnia deveria ser uma terra distinguida pela mitologia, nunca pela teologia.

11 Comments:

Blogger André Batista said...

Excelente análise Francisco, queres ir trabalhar para que revista de cinema ?! :P Cumps.

4:05 da tarde  
Blogger r.b.S said...

Motivos para visitar:
...:::r.b.S:::...

Alguns destaques do meu blog para o próximo mês de Fevereiro:
Já esta semana, a proposito da edição 200, um especial Compost Records: -Compost 200:Freshly Composted!

E ainda ao longo do mês:
-Alif Tree "French Cusine"
-Modeselektor "Hello Mom!"
-Coldcut "Sound Mirrors"
-Beck "Guerolito"
-Jan Jelinek "Kosmischer Pitch"
-Tiga "Sexor"
...e depois se verá!

http://rbs1.blogspot.com

Um abraço

6:13 da tarde  
Blogger André Carita said...

Este é daquele género de filmes que não aprecio... mesmo assim pela publicidade toda à volta do mesmo esperava que tivesse boas críticas mas pelo que parece a desilusão foi geral!
Um abraço Francisco!

12:29 da manhã  
Blogger brain-mixer said...

Fiquei extremamente aborrecido pelas grandes receitas que o filme tem vindo a ganhar nos EUA (277 milhões de dólares até agora) já que outros filmes mereciam ser visto em detrimento deste... E porque todo o sucesso de qualquer filme obriga a sequelas (e logo este que se compõe por 7 livros :S)

Parece que já sabia com que contar ao ver o trailer há uns meses... Se tu estavas expectante pelo filme e até tu mudaste de opinião ;)

8:36 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

André Batista: Era bom era... :)
Cumprimentos.

R.B.S.: Aqui fica depositada a publicidade ao teu blog... que receberá certamente a minha visita.
Abraço!

André Carita: Eu sou fã do género, mas este é um pobre exemplo do género fantástico.
Abraço!

Brain-Mixer: Bem verdade Edgar!
Tinha esperanças de um bom aproveitamento dos elementos fantásticos do livro, mas tais expectativas foram defraudadas... e de que maneira!
Cumprimentos.

12:57 da tarde  
Blogger gonn1000 said...

Bem, parece que só eu é que gostei do filme, se calhar foi influência do espírito natalício...

4:42 da tarde  
Blogger membio said...

é berdade gonn lol :) eu tb fiquei desiludido com o filme, achei os fx fabulosos mas a história demasiado "kiddy stuff" em comparação com o tom mais sério e mais épico de lotr, enfim... pode ser q o 2 seja melhor :)

8:45 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Gonn1000: Não foste o único, mas sim... acho que estavas sob o espírito natalício... :P

membio: Pode ser que seja melhor, mas duvido muito...

12:59 da tarde  
Blogger Mário Lopes said...

Não vi e também não estou para aí virado, agora que há estreias tão boas quase todas as semanas :). Fica para DVD.

Abraço

S0LO
http://lordofthemovies.blog-city.com/

9:22 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Fazes muito bem.

Abraço!

1:10 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Já somos dois... aliás, somos muitos...

7:33 da tarde  

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