sábado, janeiro 13, 2007

"Apocalypto", de Mel Gibson

Class.:


Medo patológico

Folhas. Plantas. Árvores. Uma espessa cortina de verdura. O que se encontra para além dos seres vivos que a câmara apreende? Uma brisa açoita-os levemente. Será desta forma que consigo observar algo para além da folhagem? Não. Nada. Avançamos lentamente. Escuta-se a respiração atenta de uma plateia expectante. Subitamente, irrompe um animal pela verdura. Os ritmos frenéticos de uma caça bem coreografada arrancam com a acção do filme e o público segue atentamente a correria que se alastra pela tela. Aborrecido… patético! Clamam alguns. Empolgante… belo! Aclamam uns quantos. Quantos terão permanecido na contemplação da folhagem enquanto a maioria perscrutava a acção? Quantos persistiram na tentativa de vislumbrar o que existia para além da verdura do plano inicial? Quantos não foram distraídos pelo ímpeto do animal em fuga? Quantos apreenderam a ironia mordaz do seu final? Quantos verificaram a densidade da ramagem temática adelgaçando gradualmente e provocando um interessantíssimo choque entre as reflexões da filmografia de um realizador soberbo?

Sim. Mel Gibson é soberbo atrás das câmaras. Bastante louco, algo incompreendido, mas avassaladoramente soberbo. Ele sabe contar uma história como poucos, elevar a pulsação durante o relato e transportar a maioria da audiência. Quando uma narrativa (maioritariamente) visual atinge estes píncaros, torna-se complicado redigir emoções. Mesmo as piadas que derrama funcionam como factor para humanizar as personagens, estabelecendo uma aura universal, íntima, relaxada e confidente. Gibson evita o tratamento estereotipado das culturas ancestrais: demasiado sóbrias, macambúzias e sisudas. “Apocalypto” é uma experiência visceral que chispa com uma beleza cristalina, inclusivamente espelhada na pureza do formato da sua narrativa de três actos. Assente na época da civilização Maia, a película providencia uma expedição numa paragem pouco explorada na Sétima Arte. Exótico, selvagem e feroz, o filme sucede de forma pujante na concepção de uma civilização em declínio e na recreação detalhada de uma sociedade conhecida maioritariamente através de ruínas. Como elemento de uma equipa de produção valorosa, Dean Semler utiliza a alta definição do sistema da nova câmara Genesis para capturar de forma vívida a beleza da cidade Maia e o realismo orgânico da selva, acentuando respectivos perigos. É um festim visual idílico com texturas de pele à mistura, para fortificar o singular estudo da carne de Gibson.



Apocalypto” transporta. É uma viagem envolvente, perturbadora, selvaticamente bela, com tensão genuína e estética visual distinta. Cada fotograma é tão simbólico, luxuriante, demandando vigilância constante, que se torna hipnótico. Com nuances de desespero e desorientação que uma idónea câmara lenta apreende, Gibson acena alegoricamente às complexas teias políticas contemporâneas. O sangue e a brutalidade são abundantes, mas nunca se encontram deslocados com o material. Não existe sensibilidade numa deflagração de violência extrema. Quanto mais profundas as chagas, mais pressão terá de ser exercida na ferida. A manifestação de selvajaria filmada por Gibson é primária, urgente, essencial, em perfeita sintonia com a desintegração de uma civilização e com a demanda pela sobrevivência. Não se trata de um mecanismo visceral para provocar reacções básicas. Isto é realização ao mais alto nível. “Apocalypto” é um raro filme de época envolvendo nativos, efectivamente narrado sob uma perspectiva indígena. Gibson evita impor um ponto de vista americanizado, com língua inglesa à mistura. A sua analogia é global e a citação inicial do historiador filósofo Will Durant avança questões profundas sobre os ciclos das civilizações. Mais do que uma reflexão no carácter auto-destrutivo do Homem, o espectáculo do sacrifício humano num peculiar centro urbano é uma metáfora portentosa. A aparição de indivíduos de terras distantes, que forçam credos numa atitude de prepotência. O sacrifício humano ao longo da história é um facto e nos dias correntes, hordas de soldados são ofertados aos deuses da guerra. No seu quarto filme até à data (como realizador), Mel Gibson continua o seu estudo da mortificação da carne ao longo dos diferentes períodos da Humanidade. Ele coloca o Homem em conflito com Deus, com a sociedade e consigo próprio, de forma perfeitamente assimilada por um elevado número de seres... mesmo que os diálogos sejam em linguagem Yucatec. Ao longo da expiação espiritual via flagelo corporal, Gibson debate-se com diversas temáticas, intersectando-as ao longo da sua filmografia. Qual o papel paterno na edificação do filho-homem? Em que diferem as cenas de execução pública que seus filmes ostentam? Qual o significado da reprodução do azul de chacina (“Braveheart”) e das mensagens divinas (“The Passion of the Christ”)? Como é que seus filmes apresentam a crença religiosa? Como elemento fanático, institucional ou enraizado? Quais os pontos de convergência nesta colisão temática?

O filme é assombrosamente cinético (na verdadeira acepção da palavra). O seu ritmo enceta de forma veloz e gradualmente eleva a tensão através da narrativa. Existe um movimento constante que assevera uma forma de lidar com uma das suas vertentes temáticas: o Medo. O medo paralisa, inibe. O medo é uma interrupção abrupta do processo de racionalização e de todos os processos de motivação. Quando o ser humano fica inconsciente pelo medo e deseja escapar ao mesmo, o seu instinto de sobrevivência destoa. Se reflectirmos convenientemente, a maior percentagem de acidentes e mesmo sinistralidade resulta da conduta que temos perante o medo. Mas não será este o resultado de uma cultura que não só não nos preparou para enfrentar o medo, como também nos educou a temê-lo? Numa palavra: Manipulação. O medo está na raiz de todas as formas de exclusão, assim como a confiança está na raiz de todas as formas de inclusão. Ao longo dos tempos, toda a sociedade foi gerando os seus pólos de exclusão. O medo é empregue para escravizar, subjugar e dominar o povo. O medo imobiliza. E é nesta realidade que Gibson cogita e propõe movimento. Não fiquemos imóveis. Em vez de presa, sejamos o caçador. Observemos o seu movimento, as suas artimanhas e aniquilemos o seu elemento perverso. Em “Apocalypto” a única forma de sobrevivência é fluir com o medo e é aqui que o magnetismo da interpretação de Rudy Youngblood (Pata-Jaguar) se faz sentir. “Apocalypto” é um trabalho de Arte, uma visão pessoal e magna de um passado refractado através das lentes obscuras do presente. De forma desadornada e o mais directa possível, “Apocalypto” é a história de um homem que terá de enfrentar demónios (internos e externos) e que encontra na família um refúgio de salvação.

13 Comments:

Blogger RPM said...

olá meu amigo!

bom fim de semana para ti e Ninfa...

abraço grande

RPM

11:04 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Está marcado para quarta-feira. Tem recebido críticas opostas, e não quis sequer ler nada de nenhuma. Nem da tua grande Francisco. Nada que arrisque a experiência que é ver Gibson a ser megalómano (para o bem ou para o mal). Um abraço!

11:26 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Rui: Bom fim-de-semana e forte abraço caro amigo!

Knoxville: Para o bem ou para o mal, este filme representa a visão ÚNICA de um cinesta, sem adulterações exteriores. Tanto "Apocalypto" como "The Passion of the Christ" foram edificados com o próprio dinheiro de Gibson. Ambos representam genuínos filmes independentes (essa palavra empregue de forma tão dissonante num elevado número de películas).

Abraço!

11:55 da manhã  
Blogger Bárbara Novo said...

Parabéns pela crítica, uma verdadeira exaltação! Extremamente completa e levanta questões interessantíssimas, algumas das quais já tinhas levantado em comentário no meu blog, aliás.. gostei de ler o seu desenvolvimento. :)
Boa reflexão sobre o medo, também.
Quanto à minha opiniao, embora nao completamente coincidente tem vários aspectos em comum com a tua, mas também já a leste.. ;)

Cumprimentos!
LeStrange no Wordpress

5:37 da tarde  
Blogger _Loot_ said...

Mais um a colocar na lista de filmes a ver. Por isso apenas posso dizer que gosto da estética que o Gibson anda a explorar.

8:21 da tarde  
Blogger Flávio said...

Adorei o Apocalypto. Como já disse no Royale with Cheese, deve ter sido o primeiro filme de aventuras sobre os maias exclusivamente do ponto de vista dos nativos e não dos europeus.

O meu momento preferido do filme: logo antes do sacrifício, os protagonistas vêem nas paredes as pinturas da sua própria execução. Simples, engenhoso e assustador!

2:06 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Fui vê-lo hoje e concordo totalmente.
A acrescentar: a banda sonora, a pouca mas brilhante utilização da câmara segura à mão em planos subjectivos e uma caracterização soberba. Com direito a um especialista de caracterização só para... dentes.
Brilhante.

3:14 da manhã  
Blogger cine-asia said...

Cheguei agora do cinema e estou siderado! Este Apocalypto é assombroso! Brutal e violento, mas belíssimo. Grande filmaço de Mel
Gibson.

Abraço Francisco.

3:42 da manhã  
Blogger H. said...

Meu caro Francisco,
Lamento discordar de ti... Nem as belas filmagens das folhagens revolteantes me transportaram para outra dimensão, nem fui capaz de alcançar a profundidade que descobriste no filme (sem dúvida que as tuas frases fazem tudo parecer melhor, mas não sei se isto estava no filme ou se estava apenas no teu olhar sobre ele). Naturalmente há lá mais que violência, sim, mas não vi lá muito equilibrio na sua explanação.
Retenho sobretudo - mais que qualquer manifesto subtil - um trabalho de reconstituição histórica interessante.
Queria ter gostado mais, a sério que sim. Mas infelizmente Gibson desta vez desiludiu-me...

8:50 da tarde  
Blogger Opintas / Bernardo said...

É realmente um grande filme. Boa semana.

10:35 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Bárbara: Muito obrigado. Quando um filme atinge este nível de excelência, as reflexões não tardam a desabrochar.

Cumprimentos.

looT: É sublime.

Flávio: ... e poético... estranhamente poético.

Carlos: Excelsa equipa de produção.

Sérgio Lopes: A afirmação categórica de um autor arrojado e distinto.

Abraço!

Helena: Minha cara Helena,
ainda bem que existem opiniões divergentes. Isto acentua a presença de um objecto artístico. Para ti "Marie Antoinette" é um dos melhores do ano, e também lamento que para mim sejam apenas 40milhões gastos em fotografias de fotologs pindéricos. Este "Apocalypto" é outro filme que divide opiniões. Para uns há conteúdo (e muito!), para outros não.

Mas sabes o que retenho nestas divergências, quando existem críticas construtivas? Por respeito e não só, passo a admirar certos polos de um filme que abomino, quando leio um texto (como o teu para o filme da Coppola) que derrama uma sustentação emotiva bem explanada.

Acima de tudo haja respeito entre cinéfilos, algo que rareia, mas que sempre existiu e existirá entre nós. :)

Opintas/Bernardo: De acordo.
Boa Semana.

11:46 da manhã  
Blogger refugee said...

É um gilme maravilhoso lindo, adoro vê-lo e é sempre mágico cada vez que o vejo. Nunca me desilude, e nota-se uma técnica muito própria de Gibson a filmar, aitêntica sobretudo, e muito focada. Consegue transformar o profano em sagrado, o mundano em mito. Adoro a sua violência

10:06 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Absolutamente de acordo!

9:36 da manhã  

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