sábado, setembro 16, 2006

"United 93", de Paul Greengrass

Class.:



Embarcar na angústia do caos

A 11 de Setembro de 2001, a América em particular e o mundo em geral, testemunharam o horror de um ataque terrorista organizado quando três aviões foram desviados, sendo que dois embateram no World Trade Center (acabando por destruir as simbólicas Torres Gémeas) e outro (supostamente) no Pentágono. Na bruma deste trágico dia, um quarto avião sequestrado não chegou a atingir o seu alvo. Um grupo de passageiros rebelou-se, acabou sacrificando as próprias vidas e esta é a sua história… a arrepiante história do voo 93.

Cinco anos após a catástrofe, o mediatismo da imprensa e a hipocrisia política subverteram a sensibilidade desta data funesta em prol dos seus deploráveis desígnios. Paul Greengrass recupera o agente humano, provocando um indelével impacto emocional, através do sentimento de autenticidade patente na captura visceral do tumulto que envolveu aqueles momentos fatídicos. Greengrass opta por uma abordagem hiper-realista dos eventos, sem floreados heróicos ou backgrounds enfadonhos das personagens, deixando que o drama inerente fale por si próprio, com um elenco despretensioso que acrescenta validade à realidade nua e crua que o filme deseja reproduzir. Desviando-se dos mecanismos de prantos espontâneos, o realizador explora o caos focando-se no factor humano, quer nas pessoas do respectivo avião, quer nos indivíduos imersos no pandemónio terrestre.



Rodeando a estreia deste filme surgiu uma questão embrulhada numa urgência algo hipócrita: Não será demasiado cedo?
Contrapondo esta questão poderá surgir a seguinte: Será que as audiências mundiais têm assim tanto torpor/temor em lidar com os torvelinhos da realidade, que necessitam de carícias incessantes de fantasia? Inúmeros filmes sobre flagelos da história da Humanidade (desde o ataque a Pearl Harbor ao Vietnam, passando pela Guerra do Golfo) foram lançados na fresca alvorada de malogradas ressacas humanas, logo a questão fulcral torna-se: Será o filme “United 93” (e o próximo “World Trade Center” de Oliver Stone) bom o suficiente para lidar com uma matéria tão sensível?

Na linha do seu anterior “Bloody Sunday”, Greengrass volta a recriar caos com meticulosidade, rigor e inteligência, examinando uma tragédia com o poder da Arte. Com um punho hábil na manipulação de contextos panorâmicos, mostra-nos como não devemos esquecer o 11 de Setembro e ilustra-nos como o deveremos reviver. Declinando adelgaçar o assunto para as linhas de um simples conto de heróis e vilões, Greengrass filma a urgência da revolta com espontaneidade, apreendendo o pavor a bordo e o instinto primário humano pela sobrevivência. Os minutos finais de “United 93” são devastadoramente memoráveis. A câmara amotina com movimentos constantes, de atalaia esquadrinhando os espaços como se buscasse respostas, salvação, repouso, redenção. Mas a assombrosa imagem final remete-nos para a futilidade da demanda. Magistral! Imperdível!

11 Comments:

Blogger sem-comentarios said...

Este deve de ser muito melhor que o do Oliver Stone.

Excelente dica !

Bom fim de semana ** :)

10:30 da manhã  
Blogger Knoxville said...

Já o disse noutro blogue e volto-o a dizer. Existe um "Flight 93" feito para a televisão norte-americana (não, não é nenhum dos que deu na TV portuguesa) soberbamente melhor do que este United 93.

Este United 93 ao pé desse, é mero passatempo.

Cumprimentos Francisco.

11:52 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Sem Comentários: A confirmar...
Bom fim-de-semana. :)

Knoxville: Opiniões.
Pessoalmente, considero o Greengrass um cineasta insuperável neste género cinematográfico. A experiência dos últimos 25 minutos de filme é avassaladora.

Cumprimentos.

12:00 da tarde  
Blogger wasted blues said...

Tenho curiosidade em ver o 'Flight 93', mas este 'United 93' não tem nada para se envergonhar.

1:54 da tarde  
Blogger Pedro_Ginja said...

Este filme foi uma verdadeira surpresa. So tenho pena de estar em trabalho e nao ter tempo de alimentar o meu blogue.

Foi uma experiencia dos sentidos. Nao pensava ficar tao afectado como fiquei durante o filme. Ja ha muito tempo que um filme nao me tocava assim tanto emocionalmente.

E nem so da arte de filmar vive um filme mas tambem das emocoes que transmite. E nesse plano este esta la no topo.
Vou tentar voltar aqui quando puder para saber mais novidades do cinema.

Adeus e abraco Francisco

4:31 da tarde  
Blogger RPM said...

amigo Francisco.....

em Zen estou eu mais a minha cara metade... porque Oz fica mesmo ao lado....

bom fim de semana e um forte abraço

RPM

5:48 da tarde  
Blogger Maitê said...

Pois é, sabe, eu não tenho curiosidade em relação a este filme, mas gostaria de ver As torres gêmeas. Isso sim, deve ser um filmão... Abs e obrigada pela visita... Abs

11:18 da tarde  
Blogger André Carita said...

Neste momento, aguardo com maior ansiedade o WTC de Oliver Stone. Não querendo pôr em causa o brilhantismo que referes na tua análise, mas já vi inúmeros documentários principalmente sobre o Flight 93...
Se os achei impressionantes na altura, não sei até que ponto conseguirei assistir a este filme no cinema...

Um abraço Francisco!
Ah e passa pelo meu blog porque foste "etiquetado" :P

2:35 da manhã  
Blogger Dora said...

Ainda não o consegui ver...

2:36 da manhã  
Blogger H. said...

Como a tua crítica ilustra bem, é um filme que não só nos detém sobre o "filme" em si como sobre a realidade que o inspirou.
Um exemplo de humanidade em bruto, filmado com uma precisão e crueza tão comoventes como arrepiantes.
Sem dúvida "magistral" e "imperdível"!

9:08 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Wasted: Não tem, não senhora.

Pedro: Volta sempre que desejares.
Abraço!

Rui: Abraço para ti e cumprimentos para a tua cara-metade.

Maitê: Esse fica para esta semana.
Abraço!

André: Como experiência de Cinema, este é imperdível.
Abraço!

Dora: Aconselho-o vivamente. Se bem que seja demasiado forte para algumas pessoas.

Helena: Como tu disseste: «Longe de patriotismos lamechas e americanices exageradas, Greengrass (que é inglês) lega ao mundo inteiro uma história humana, (...) Não é sobre vingança. Não é sobre preconceito. É sobre humanos, que rezam, que choram, que duvidam».

10:23 da manhã  

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