quarta-feira, julho 27, 2005

“Signs”, de M. Night Shyamalan

Class.:



“Are you the kind that sees signs?” (Graham Hess)

Quando a prateleira da Cinemateca que albergava a secção “Invasões Alienígenas”, aparentava lotação esgotada em matéria original, eis que surge um indiano reivindicando um lugar. A maioria dos filmes sobre invasões retrata a ameaça numa escala global. “Signs” não excede a comunidade rural de Graham Hess, pois a invasão é filtrada pelo olhar da sua família.

Mel Gibson representa o padre Graham Hess, um viúvo que cuida dos seus dois filhos, Morgan (Rory Culkin) e Bo (Abigain Breslin), numa quinta da Pennsylvania. Após a morte da sua esposa, o seu irmão Merrill (Joaquin Phoenix), junta-se à malograda família para apoiar o seu mano mais velho. A tragédia sofrida por Graham fê-lo perder a fé em Deus, renunciar à sua vocação e dedicar-se aos trabalhos na sua quinta. Certa manhã, depara-se com uma incrível descoberta: círculos nas suas searas. Será uma artimanha? Se sim, então certamente trata-se de um embuste muito bem elaborado.

Seguem-se ruídos nocturnos estranhos, o cão fica violento e ladra incessantemente, Bo não consegue dormir e diz que a água tem um sabor esquisito. Copos semi-cheios de água “contaminada” (como refere Bo) estão espalhados pela casa. Compassadamente e de forma enigmática, Shyamalan inicia o recital.

A abordagem de Shyamalan é original e demarca-se radicalmente de fimes semelhantes, mas o filme engloba referências e homenagens a prévias obras da Sétima Arte. O crédito inicial evoca a composição musical de Herrmann para o filme “Psycho” de Alfred Hitchcock, a clausura recorda “Panic Room” de David Fincher e até “War of the Worlds” é honrado através de referências ao filme de 1953 e ao programa radiofónico de Orson Welles.



A comparação de Shyamalan a Hitchcock não é descabida. O seu prodigioso engenho estilístico e a propensão para ambientes de poderosa tensão e suspense são elevados pelas primorosas composições de James Newton Howard. Se Shyamalan é o Hitchcock da nova geração, então Howard será o novo Bernard Herrmann. Shyamalan trata a sua incursão pelo fantástico com boas doses de realismo, tal como o havia feito em “The Sixth Sense”, “Unbreakable” e mais recentemente em “The Village”. Como reagirá uma família vulgar, consumida pelos seus problemas particulares, perante um cataclismo universal?

“Signs” é o trabalho de um cineasta que oculta os seus segredos no coração da história e revela-os na devida altura. O filme atesta subtileza, graciosidade, esplendor e astúcia. A manipulação do som, a ausência de som, a claustrofobia, o desenvolvimento de personagens e o humor seco, tudo obtido de forma superior.

A forma como ele oculta o seu ponto menos positivo é notável: através de um vulto reflectido pelo ecrã televisivo, ou pelo luar, evidenciando-o apenas em ocasionais relances. Existe uma cena envolvendo um vídeo caseiro transmitido pelo noticiário, na qual o espectador dará por si perscrutando o ecrã, tentando matar a curiosidade. É um autêntico momento de antologia cinematográfica. Outras cenas ilustres serão exibidas e uma delas usará um intercomunicador para bebés.



Será “Signs” uma Obra-Prima? Pessoalmente, considero-o claro como a água! A composição musical é magnífica, as interpretações elevadas (com brilhantes desempenhos do poderoso Gibson e do divertido Phoenix e com Shyamalan comprovando novamente o seu toque de Midas com as crianças), o storytelling é excelso e a ressonância moral é inolvidável.
A crítica especializada recusa render-se a Shyamalan aquando do lançamento dos seus filmes, mas a vingança do feiticeiro encontra-se alojada na respectiva película. Quando os seus filmes são revistos a consideração pela obra eleva incomensuravelmente. Todos os inteligentes sinais do fenomenal cineasta são assimilados e compreendidos. Prova disso foi o ídolo do realizador indiano (Spielberg) ter-se inspirado no seu fã para criar um filme e verificarmos a crítica cedendo (periclitante, mas incontestável e forçosamente) à genialidade de M. Night Shyamalan.

Shyamalan concebe sólidos thrillers, anexando boas porções de espiritualidade. “Signs” abriu novas perspectivas no género Sci-Fi e cativou a atenção do espectador, despertando ecos do filme na nossa mente, à medida que a história expande e é redefinida na nossa cabeça. É um exercício de fé do autor, que debate a existência de alguma plataforma metafísica em oposição à certeza da morte. Os sinais são meticulosamente derramados pela obra e cada um deverá decifrá-los: o pó na parede do quarto de Graham destaca o local onde era pendurado um crucifixo; a água representa o Baptismo Cristão – o símbolo da alma regenerada; a lanterna rolando pelo solo da cave e derramando luz, enquanto o resto se encontra imerso em escuridão e encoberto à audiência, representa a fé, a esperança. Shyamalan revela igualmente que o verdadeiro terror está alojado na psique humana, e será despertado em catadupa se o inimigo permanecer oculto, atormentando o espectador através do imaginário. Sejamos crentes ou cépticos, Shyamalan manifesta uma tenuidade avassaladora na construção das suas visões. Acreditem, com o passar dos anos, a avaliação dos seus filmes será menos “preguiçosa” e este esplêndido cineasta receberá as devidas alvíssaras, vendo a sua obra venerada. Os sinais são evidentes.

28 Comments:

Blogger brain-mixer said...

O Shyamalan é sem dúvida um grande realizador e argumentista. Este filme, porém, ficou-me a saber a pouco. Isto porque esperava por outro final. Talvez que se não fizesse aparecer o Alien no final... Talvez a história fosse outra.

9:37 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Se estiveres atento, irás reparar que ele apenas revela o alien duas vezes (e uma delas é numa das melhores cenas dos últimos anos, num vídeo caseiro). Shyamalan apenas o exibe através de vultos na tv, reflexos numa faca, e por aí fora.
Spielberg em "Jaws", tb apenas mostrou o mecânico tubarão nos momentos necessários.
Isso revela genialidade.

10:12 da manhã  
Blogger Ne-To said...

Obra prima, sem qualquer duvida. Daqui a uns anos será dos filmes que vai ser estudado pelas escolas em todo o mundo.
Juntamente com "The Village" são as melhores obras do realizador, talvez "The Village" me fascine ainda mais.

Cumps

11:29 da manhã  
Blogger André Batista said...

Uma pérola do cinema

11:47 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

NeTo e André: Adoro "The Village", mas este "Signs" enche-me as medidas. Está repleto de simbologia e profundidade. Quem perder este filme, estará a perder um capítulo indelével na história da Sétima Arte.

Abraço a ambos.

11:50 da manhã  
Blogger Coutinho77 said...

Concordo com tudo o que disseste. Até hoje ainda não vi um filme dele que não tivesse devorado mais que uma vez. Para mim o meu favorito no entanto é o "protegido" talvez pela aquela composição sonora brutal e pelo meu gosto dos comics qunado era mais jovem..,
Abraço

1:06 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

coutinho77, antes de mais benvindo!

"Unbreakable" é uma história de herói vs vilão, com uma realidade assustadora, pois expõe a vulnerabilidade humana. Brilhante filme, sem sombra de dúvida.

Grande Abraço.

1:59 da tarde  
Blogger Pedro Quintino said...

Vi todos os filmes de M. Night Shyamalan exceptuando 'The Village'. Como diria a Vera Alves, tenho que colmatar esta falha rapidamente...
'Signs' sempre foi o meu favorito, ao lado de 'Sixth Sense', não só pela excelente interpretação de Gibson, mas pelo meu fascínio por fenómenos deste género e semelhantes. Não posso deixa de me lembrar o 'cagaço' que apanhei na cena em que Shyamalan mostra um ET no Brazil a esconder-se. Creepy!

2:12 da tarde  
Blogger membio said...

É um filme que enche as medidas sim senhor.... Visionamos o filme do principio ao fim, como se fosse um doce de verão... Começa bem e acaba depressa, o final devia ter culminado com um pouco mais de emoção, como aconteceu igualmente no recente "guerra dos Mundos" de Spielberg, mas gostei na mesma da opção do realizador... "The Village" foi um filme que me desiludiu, é uma pena, porque toda a mística em volta das criaturas, foi deitada por água abaixo, gostava mais que elas existissem do que ter sido tudo um embuste. A trama foi interessante até ao final, mas o embuste falso da criatura desiludiu-me imenso...

2:27 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Pedro: É a fenomenal cena do video amador. A tal que considero uma das melhores que a Sétima Arte gerou nos últimos anos.

membio: "The Village" é um filme que sobe na minha consideração a cada nova visualização, como qq filme deste brilhante realizador.

3:10 da tarde  
Blogger Ricardo Valadares said...

Pois quanto a mim, os filmes do M.K.Shyamalan sofrem sempre da mesma falha: promete, promete e depois muô.
Ele cria uma atmosfera palpável e tensa com um ritmo bem esgalhado, mas depois, quando chega à altura de cobrar as promessas todas que o filme fez até lá, a estória perde o ritmo e desmorona-se à nossa volta, dando sempre a sensação de "ah, afinal era só isto..."
Bom realizador, em termos visuais, de uma grande força iconoclástica, mas que precisa, a meu ver, de uma ajuda para finalizar os seus filmes. Acho que ele tem medo de chocar as pessoas.
Pessoalmente, o "the Village" ficou-me na memória como o melhor filme de Shyamalan (e já os vi todos), mas se aquela estória levasse uma volta, acabava em beleza. Em vez de termos a estória de uma comunidade rural isolada, que vive no medo constante de ser assaltada por um grupo de demónios, deram-nos apenas um grupo de hippies cobertos com uma manta a contar estórias da carochinha às crianças. Não conseguia fazer nada melhor? O filme surpreende porque lá para o fim, ficamos a saber o que se passa e a descoberta é quase mais incrível do que aquilo que fomos levados a acreditar até então. Mas porra, Shyamalan, tens de fazer sempre isto?

4:09 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Aceito a tua opinião, mas discordo profundamente como enfatizei na crítica.

Shyamalan escreve e filma este filme com uma profundidade que será olvidada por muitos. É uma poderosa dissertação sobre a imaterialidade. Sobre a busca de algo transcendental nos meandros da realidade. Escreveu-se um capítulo indelével na história da Sétima Arte e os sinais estão bem cravados no filme, resta a cada um decifrá-los.

Grande parte da crítica especializada já admitiu erros na sua avaliação primordial ao filme, reconhecendo a genialidade de Shyamalan em dispor sinais ao longo da obra, que poderão passar despercebidos ao público em geral.
Este filme irá crescer imensamente nos anos vindouros, será objecto de estudo, reprodução (como aconteceu este ano) e reverência.

4:35 da tarde  
Anonymous Marcos A. Felipe said...

Coloquei lá no Blog Sétima Arte um link para o seu blog.

8:19 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Obrigado pelo link Marcos. Também já linkei o teu Blog aqui no Pasmos Filtrados.

10:49 da tarde  
Blogger Gustavo H.R. said...

Como admirador incondicional da genialidade e sutileza emocional ímpares desse jovem diretor indiano, afirmo que seu texto é simplesmente a melhor dissertação osbre o filme que li até hoje. Clara, concisa, concordo plenamente. Nem Spielberg conseguiu fazer de seu GUERRA DOS MUNDOS uma obra do mesmo nível.
E viva Shyamalan!

12:52 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Obrigado Gustavo.

Viva Shyamalan, Viva!!

8:16 da manhã  
Blogger brain-mixer said...

Concordo com a cena do vídeo caseiro brasileiro!! É a melhor cena de terror-directo desta (curta) década. Mas continuo a achar que o Alien se deveria manter na sombra no final do filme.

10:19 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Ele apenas o mostra qd é absolutamente necessário. Para mim é fantástico o processo de camuflagem que ele adoptou (vultos, reflexos, relances)... genial!!

Abraço!

12:13 da tarde  
Blogger Gustavo H.R. said...

E li no Imdb que, na cena do vídeo caseiro, o alien aparece o tempo inteiro, escondido, de cabeça abaixada, entre as plantas. Não chequei para ver se a informação é verdadeira.

2:15 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

É uma cena primorosa!

8:00 da manhã  
Blogger Knoxville said...

É, sem dúvida, um filme com momentos brilhantes e com uma temática religiosa bastante curiosa e que, quem sabe, daqui a muitos anos, será objecto de estudo e admiração.

No entanto, quanto a mim, e comparando com as restantes obras do Night S., fica por aí. "Signs" é um filme com uma história mediana, más representações do elenco principal (Mel Gibson e Phoenix) e fraco comparado com Sexto Sentido e o Protegido.

Três estrelas :)

Um abraço Katateh!

11:32 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Más interpretações?? História mediana?? Opiniões... A minha resposta está na crítica e longe de mim influenciar a tua opinião...

Abraço!

8:36 da manhã  
Blogger Knoxville said...

Mas o grande Katateh, longe de mim também querer influenciar a tua opinião e a dos restantes.

Aliás, já devias saber que eu sou um bocado estranho no que toca a gostos de cinema :)

Um grande abraço!

3:43 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Não existem gostos estranhos, cada cabeça sua sentença. :)

Abraço, Grande Matateh!

4:06 da tarde  
Blogger Cataclismo Cerebral said...

Adoro este filme, a temática da fé está muito bem desenvolvida e original. O facto pelo qual o filme nos causa alguma pele de galinha é exactamente pela questão da fé, é como se tivessemos "medo" por não sabermos lidar com tal acontecimento. No entanto, a parte final desilude-me um pouco: sou dos que acha que nunca deveríamos ter visto o extra-terrestre; o poder da sugestão (que faz com que cada um de nós crie a sua própria interpretação do filme) é o que faz ter medo.

Abraço

2:10 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Defendo que a sua revelação naquele vídeo caseiro transmitido pelo noticiário é um momento de antologia.

Abraço!

9:35 da manhã  
Blogger Cataclismo Cerebral said...

Atenção: eu adoro a parte do vídeo caseiro! É de arrepiar completamente. Não queria era ter visto mais o alien a partir daí...

Abraço

2:37 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Entendido ;)

Abraço!

3:54 da tarde  

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