sábado, julho 23, 2005

“Blade Runner”, de Ridley Scott

Class.:

“Show me what you're made of.” (Roy Batty)
Los Angeles, 2019. A decadente e pluviosa metropolis exibe slogans comerciais através de vídeos refulgentes, as estradas encontram-se atulhadas de trânsito e o ar é uma mixórdia de poluentes. O mundo é negro, frio, hostil e nocivo. É um período de decadência, medo, lixo, chuva ácida, néon e promessas de ar puro, águas azuis cristalinas e relva verde. Será uma visão do presente projectado no futuro? Sim. É o negro destino da sociedade de consumo, capitalista e poluente, a distopia do amanhã.

Rick Deckard (Harrison Ford) é um Blade Runner retirado. Ou seja, um polícia especializado na perseguição de Réplicas (humanos artificiais, andróides semelhantes em praticamente todos os aspectos humanos, excepto dois pormenores: ausência de memória e vida extremamente curta). Quatro Réplicas assassinas fugiram de uma colónia espacial e encontram-se à solta na cidade. A missão de Deckard é exterminá-las.

“Blade Runner” é uma cadenciada fusão de ficção científica com film-noir dos anos 40. É baseado na obra de Philip Kindred Dick intitulada “Do Androids Dream of Electric Sheep?”. Este autor é responsável por um vasto leque de romances que originaram alguns filmes, tais como “Minority Report” de Steven Spielberg ou “Total Recall” de Paul Verhoeven. Ridley Scott e a sua equipa de argumentistas (Hampton Fancher e David Peoples) pegaram no alicerce do romance e edificaram um poderoso filme que transcende o próprio romance de Philip K. Dick, aprofundando-o. Demarca-se inclusive da sua fonte de inspiração e engloba referências bíblicas e mitológicas enobrecendo a sua concepção.



Ridley Scott foi auxiliado pelo designer de produção Lawrence G. Paull (“Back to the Future”) na materialização da sua prodigiosa visão. O lendário artista comic, Jean “Moebius” Giraud, responsável pela arte conceptual de “Alien”, oferece também um valoroso apoio como designer.
Os efeitos especiais são deslumbrantes, e a direcção artística é das mais originais na história da Sétima Arte, enleando arquitectura Ultra-Moderna, Maya e Egípcia numa formosa tapeçaria. A cinematografia a cargo de Jordan Cronenweth é tão excepcional que os visuais adquirem as funções de uma personagem. Cada plano é engenhoso, inventivo e deslumbrante. Cada cena é meticulosamente perpetuada em filme e daria um fenomenal poster. O uso das sombras e os ângulos da câmara são alvos de minuciosas preparações.

“Blade Runner” é essencialmente negro, acentuado nas sombrias artérias frequentadas por vagabundos. As perspectivas da cidade através do piramidal edifício Tyrell realçam o smog que a obscurece. As cenas envolvem igualmente massivas camadas de néon, chuva e exóticos raios de luz que se tornaram imagem de marca desta obra. O cenário é barroco, com uma inquietante aglomeração de detalhe. O som é atmosférico e a composição do grego Vangelis é essencial, memorável, mágica.

As personagens são inquietantes e exemplarmente concebidas. O reduzido elenco foi meticulosamente seleccionado. Harrison Ford (Rick Deckard) oferece uma das suas melhores interpretações, seguro e credível. Sean Young representa a esbelta Rachel com inocência e vulnerabilidade, projectando uma imagem do que consideramos Humano. Daryl Hannah é a sedutora e mortífera Pris, o eficaz Edward J. Olmos dá vida a Gaff e Rutger Hauer (Roy Batty) é o fenomenal líder das Réplicas, num papel antagónico de vilão. O seu carisma é expressado liricamente através de memoráveis linhas, num convincente retrato apaixonado e desesperado. A relação entre os actores não foi muito saudável, mas a tensão entre os elementos do elenco apenas tornou o produto final mais intenso e emocional.



“Blade Runner” transcende o género, através de meditações filosóficas, políticas e morais, questionando sociedades contemporâneas. Incita reflexões existenciais sobre a vida e a morte, sobre o significado de humanidade, a natureza e relevância da memória na nossa existência, sobre o desejo de imortalidade. É uma gloriosa análise do nosso planeta, uma brilhante dissertação sobre o desenvolvimento e evolução da humanidade. “Blade Runner” é um daqueles raros filmes que se atrevem a prever o futuro e cujas conjecturas se revelam mais acertadas à medida que os anos passam.

O filme toma lugar durante uma guerra silenciosa entre humanos e andróides e no decorrer do filme, ambos colocam idênticas questões filosóficas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? O observador é estimulado a ponderar a essência da Humanidade. Que é que nos faz Humanos? Memórias? Pensamentos? Ideias? Sentimentos? Que será realmente um sentimento?

As influências do filme foram “Metropolis” de Fritz Lang (1927) e “2001: A Space Odyssey” de Stanley Kubrick (1968), dois marcos na história da ficção científica em particular, e da Sétima Arte em geral. Criado em 1982 à sombra de “Star Wars” e “E.T.”, a visão de “Blade Runner” não foi (nem será) assimilada pelo comum moviegoer, pois desde “2001: A Space Odyssey” não surgia um filme tão complexo, provocante, sofisticado e intelectualmente estimulante. O género Sci-Fi foi inovado e transcendido por este filme de culto, cuja influência gerou inúmeros ecos, repercutidos não só em filmes, obras literárias, comics e até vídeo-jogos, como também foi objecto de reflexão em críticas, ensaios, livros e estudos. A crítica ignorou o filme na altura do seu lançamento, para mais tarde ser obrigada a glorificá-lo pelas repercussões que produziu. A bofetada de luva branca foi primorosa.

Ver este filme representa para mim uma jornada religiosa. Nos dias que correm, um bom filme de ficção científica é um raro artefacto. O âmago e o coração do género, as ínfimas faculdades da imaginação e do pensamento foram substituídos por sequências de acção primitivas e panóplias de efeitos especiais criados para camuflarem míseros argumentos. O resultado é o género ter-se tornado (para muitos) sinónimo de retardado e previsível filme pipoca. É por isto que devemos projectar o nosso olhar bem atrás no tempo, para descobrir e contemplar boa ficção científica. Todos os géneros têm as suas Obras-Primas, e “Blade Runner” coroa o género Sci-Fi.

De referir ainda que o filme teve direito a um “Director’s Cut”. Nesta versão, Ridley Scott reivindicou a sua genuína visão, sem a adulteração dos estúdios. O resultado é um filme que graças à subtileza de Scott, supera o original. Aliás, “Director’s Cut” é o verdadeiro filme original. Representa o imaculado desígnio do realizador, pois dá ênfase ao simbólico Unicórnio e elimina a narração e o final “feliz” (menos ambíguo) imposto pelos estúdios. O final do filme é assombroso, violento e envolvente. Deixa uma impressão indelével. “Blade Runner” é único e fenomenal a todos os níveis. É um conto profético e emocional que se estabeleceu como um dos mais originais e inteligentes filmes de ficção científica jamais edificados. “Blade Runner” faz-nos sentir, pensar e questionar a realidade. A fantástica visão barroca de Scott, a chocante iconografia, o futurista mundo alquebrado, a majestosa fotografia, a mágica composição musical e o acutilante argumento deificam a história. “Blade Runner” é o exemplar filme transcendental.

18 Comments:

Anonymous S0LO said...

Grande clássico de ficção científica :)!

Cumps. cinéfilos

7:21 da tarde  
Blogger Pedro Quintino said...

É verdadeiramente um filme que transcende o seu género e em tudo resulta (não fosse ele assinado por Ridley Scott). E acho que mesmo que não fosse o caso, iria imediatamente vê-lo, dada a riqueza e a profundidade do modo como o descreveste.
Sou eu quem diz agora: brilhante texto, Francis.

12:44 da manhã  
Blogger André Batista said...

Gostei do filme, mas não o acho uma obra-prima.

4/5

12:02 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

s0lo: o meu preferido.

Pedro: :) Scott pegou em alguns elementos de uma obra literário, alterou-a (quase completamente) e criou um filme glorioso e trancendental. Isto é Cinema!!

André: Opiniões... do meu ponto de vista, é a superior obra prima do género ficção científica e uns dos melhores filmes de sempre. Cinema é seres transportado para mundos novos e seres incitado a questionar a tua vida. "Blade Runner" vao muito além desta definição. É colossal!

3:10 da tarde  
Blogger membio said...

os bons filmes filmes são aqueles que resistem ao passar do tempo, e este portou.se excelentemente bem. Vale a pena rever de tempos a tempos...

12:48 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Este filme resistiu ao passar dos tempos e revela-se mais e mais acertado nas suas previsões, à medida que os anos passam.

Além disso é um dos filmes mais influentes de sempre, perdurando em obras posteriores.

1:57 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

É verdade, não é qualquer filme que mais de 20 anos depois ainda é ficção científica. Ainda me lembro quando vi o 2001 pela primeira vez (na altura já havia PC's e MB's aos pontapés... Bom, esse tb já tem uns 40 anos...)

8:13 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Esse é outro filme arrebatador! Kubrick no seu melhor.

11:12 da tarde  
Blogger Ricardo Valadares said...

Em Blade Runner e Alien, Ridley Scott assinou os seus maiores juggernauts. Lamentável não ter continuado no género Sci-Fi, pois consegue esmagar o público com a sua megalomania visual.
Não existem palavras para descrever o que este filme me faz sentir. Todo ele é um imenso choque, que nos deixa em absoluto êxtase, abismados com aquilo que acabámos de ver, ouvir e sentir.

2:51 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Também partilho da tua opinião. As superiores obras de Scott, foram concebidas sob o domínio Sci-Fi. Tanto "Blade Runner" como "Alien" estão no meu Top5 Sci-Fi.

Cumprimentos e benvindo.

3:17 da tarde  
Blogger Ricardo Valadares said...

Para mim, a frase que define o filme, é a exigência pura e crua que Roy faz ao presidente da Tyrell Corp. "I want more life, fucker!"

Mein hertz, mein hertz.

4:23 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

:)

4:39 da tarde  
Blogger Thanatos said...

Ou eu não percebi bem ou então li mal mas as «influências» deste filme foram quais mesmo? E eu aqui a pensar que as «influências» tinham sido a novela do Philip K. Dick bem como o emergente cyberpunk pela mão de William Gibson (em contos publicados em várias revistas). E quanto às reflexões filosóficas etc. elas não serão mais derivadas de Dick do que dos argumentistas? Se calhar não ficava nada mal ler ou conhecer a obra de Dick antes de vir dar os louros de certas coisas a outros...

8:37 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Certamente não me compreendeste, ou então não leste "Do Androids Dream of Electric Sheep?".

Existem filmes que representam adaptações quase literais dos contos que narram cinematograficamente. Contudo, existem outros filmes que influenciados por determinado «romance base», decalcam a sua imagem própria na tela. "Blade Runner" é um desses exemplos, não descurando (como qualquer outra película) influências. "Fight Club" é outro exemplo de filme criado a partir de um romance, mas edificando uma imagem própria. Aliás, o autor do livro original (Chuck Palahniuk) referiu inúmeras vezes que prefere a visão que o filme de Fincher apresenta no produto final.

1:24 da tarde  
Blogger Thanatos said...

Obviamente que li "Do Androids...", várias vezes até. E daí que eu considere que o filme de forma alguma transcenda o livro ou se «baseie» nele para dar um pulo maior. Isto porque as preocupações subjacentes no filme eram já as de Philip K. Dick que as reflectiu ao longo duma série de novelas.

Entretanto e nada a propósito espero com alguma trepidação pela adaptação de "A Scanner Darkly".

6:21 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Concordo em absoluto quando falas na influência mor do filme (Philip K. Dick), mas nem outra coisa seria de esperar de um livro que se baseia num romance seu.

No entanto, "Blade Runner" tem a sua identidade própria e Scott estampa um cunho que marcou indelevelmente um padrão na história do Cinema. A sua fusão de ficção científica com film noir para a criação da memorável distopia foi recebida na altura do lançamento com desdém, mas como qualquer Obra-Prima o filme foi ganhando o seu lugar no Altar da Sétima Arte.

Nem toda a sua importância foi captada na altura, porém (como o futuro provou na influência que gerou) lá se encontram as principais questões que povoarão o debate sobre a crítica ao Modernismo, o Pós-Modernismo. O filme é uma visão superior asseverada no movimento pelos espaços da cidade onde tudo e todos se aglomeram desordenadamente. Marcas do passado convivem com a cidade futurista.

Mas isto é apenas a minha humilde opinião.

Quanto a "A Scanner Darkly", também aguardo o novo passo de Linklater pela técnica da rotoscopia, bem como o seu tratamento concedido à obra de Dick.

7:30 da tarde  
Blogger refugee said...

Como já se disse é u grande clássico, e asua memória deve ser preservada como um brilhante filme de ficção científica, que a par dos épicos e dos filmes de guerra, são na miha opinião do género de filmes de mais difícil elaboração, o que torna Blade Runner num marco, algo que ridley scott já previa com alien, que é também um marco no terror/ficção científica.

7:01 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

É uma pena Scott não investir mais no género da Ficção Científica.

9:27 da manhã  

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