sábado, julho 07, 2007

"Hot Fuzz", de Edgar Wright

Class.:



Do Amor pelo Humor

A Cultura paga-se cara e digere-se mal em Portugal. Ser cinéfilo neste pedaço de terra à beira-mar plantado é difícil, dispendioso e doloroso. Difícil, porque qualquer indivíduo que resida fora do perímetro urbano (principalmente da capital) terá de se debater com uma série de condicionantes para visionar uma obra numa sala de Cinema. Além do número de cine-teatros ser reduzido por esse país fora, nenhum deles oferece a quantidade/qualidade de obras que as salas olisiponenses facultam. Dispendioso, porque desta forma os cinéfilos enamorados têm de percorrer dezenas de quilómetros para reconfortarem a sua Alma cinéfila, ou irem ainda mais longe, recorrendo à importação de DVD’s. Doloroso, porque esses cinéfilos aprendem a engolir tudo o que lhes surge num Grande Ecrã próximo do seu domicílio. Sem oportunidade de escolha, aprendem a deambular por vários géneros, colhendo muito lixo, mas assimilando igualmente Obras Máximas de géneros diversos. Aprendem a amar a Sétima Arte em todas as suas vertentes, porque é na percepção do que é lixo que aprendemos a contemplar a pureza da Arte. Doloroso, porque ainda existe quem não entenda que a Arte é Supra-Pessoal. Porque não existe respeito. Porque quando alguém declama a sua paixão por Bergman ou Tarkovsky é imediatamente rotulado de pseudo-filosófico. Porque quando alguém demonstra sua profunda admiração por Fellini, Dreyer, Ozu ou Bresson é imediatamente apelidado de empertigado. Porque quando alguém clama aos quatro ventos que (por exemplo) o “Die Hard” original de McTiernan é uma Obra-Prima, surge sempre um clã de vaidosos por vestes intelectuais torcendo o nariz à afirmação e olhando os restantes com desdém, como se fossem papalvos e como se fosse impossível brotarem relíquias cinematográficas de diferentes géneros. Doloroso, porque estamos inseridos numa decrépita rede de distribuição que escolhe a projecção de Scary/Epic/Date Movies em detrimento de preciosidades como “Shaun of the Dead” e “Hot Fuzz”. Como foi anunciado que Wright e Pegg iriam ser novamente ignorados pelas salas nacionais, decidi recorrer à importação do DVD de “Hot Fuzz”.

Depois da perfeição compacta de “Shaun of the Dead”, a paródia vibrante e a densidade das piadas da dupla Edgar Wright (realizador e argumentista) e Simon Pegg (actor e argumentista), volta a fazer-se sentir em “Hot Fuzz”. No meio cinematográfico, gerar um rebento cujo irmão mais velho é um sucesso de culto, torna-se um parto complicado. Como gerir o alarido? Enveredar por Hollywood e ser rotulado de vendido? Ou permanecer modesto e ser ignorado pela maioria do público? Com “Hot Fuzz”, Wright e Pegg acertam no meio-termo da questão. Tal como “Shaun of the Dead”, “Hot Fuzz” é uma paródia aos filmes e à vida quotidiana. O cidadão mais preguiçoso e irresponsável pode tornar-se um herói exterminador de zombies, da mesma forma que o emprego mais banal se pode revelar o mais profícuo. A história segue Nicholas Angel, um polícia tão bom nas suas incumbências, que faz os restantes colegas passarem por imbecis. Como resultado, seus superiores resolvem livrar-se dele, enviando o melhor polícia de Londres para a vila letárgica de Sandford. Com o supervisionamento das reuniões de vizinhança invertendo a acção do frenesim citadino, Angel luta para se adaptar à nova realidade. Todavia, uma série de acidentes misteriosos invocam a sua cautela, levando Angel a ponderar sobre o conceito idílico que havia formado sobre Sandford.



Hot Fuzz” não uma paródia vulgar. É uma história lúcida em vez de um retalho de sketches brejeiros, povoada por personagens com dinâmica afectiva sob a roupagem caricatural. Cortesia da mesma equipa criativa que identificou similaridades entre zombies e frequentadores de bares, Wright e Pegg são autênticos deuses da britcom moderna – criadores da série “Spaced”. Desta feita, a sátira é personalizada para atingir os produtores de arsenais de acção hollywoodesca, visando a lei Bruckheimer, desde as respectivas carnificinas aos lampejos de relacionamentos homo-eróticos. “Hot Fuzz” é uma comédia inteligente que demostra a linha delgada que separa convenção de farsa e quando julgamos que os limites já foram todos explorados, Wright e Pegg elevam o nível absurdo entrando no reino da sublime jocosidade.

O cinema de Edgar Wright renova o género Paródia com violência, subversão, inteligência e uma bela pitada de suspense. Evitando enraizar-se profundamente na estirpe dos seus tributos, “Hot Fuzz” transcende suas influências para gerar uma distinta planta cinemática. O sentido de estilo é tão apurado que as piadas visuais até encontram paralelo no ritmo hiperactivo da montagem. A violência de Wright e Pegg não é uma visão do conceito americano de acção pelo prisma da sensibilidade britânica. A sua violência é uma janela para a vigorosa fantasia cinéfila, como se nas mais pacatas artérias britânicas encontrassem um pretexto para o glorioso desfecho de um Western. Este beliscar da imagem tradicional da Inglaterra representa o cunho do trabalho destes génios. Ao mostrar a insanidade de uma comunidade rural determinada a manter a sua imagem imaculada, “Hot Fuzz” revela-se uma parábola sobre a sociedade de costumes, encenando o choque entre uma sensibilidade antiquada e todo um universo contemporâneo que expõe suas disfuncionalidades. A despadronização contemporânea extinguiu a lógica de uniformização. “Hot Fuzz” satiriza com as percepções desvairadas deste enfraquecimento do conceito de sociedade e do novo estágio histórico do individualismo. Acima da representação de uma forma de entretenimento, o Humor é uma forma de comunicação humana que pode dissecar a própria vida e provar ser a chave para a compreensão de culturas e respectivos costumes. Na companhia do outro elemento deste triunvirato (o actor Nick Frost), Wright e Pegg demonstram saber quando parar uma piada. A equipa harmoniza piadas geniais, com chalaças absurdas, inteligentes, óbvias, oblíquas e gags que irão deliciar o espectador mais atento e conhecedor da obra anterior desta fabulosa equipa. Ao rirem de si próprios na exacta proporção com que riem dos outros, eles desbastam a textura de paródia e revelam afeição pelo género que gozam, enquanto expõem suas vertentes mais disparatadas. Eles não olham de cima para baixo o material com o qual gracejam. Wright, Pegg e Frost encaram suas inspirações de baixo para cima, compondo uma peculiar trova de Amor pelo género de Acção.

13 Comments:

Blogger refugee said...

Deve ser uma griza esse filme.

12:55 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Acredita!

10:52 da manhã  
Blogger Carlos said...

E cá, não estreia? Vem directo para DVD???

4:15 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Infelizmente e até ao momento, é essa a pobre decisão das nossas distribuidoras.

4:45 da tarde  
Blogger Carlos said...

Tristeza... Continuamos a ser um país de fraca visão, é o que é...

7:30 da tarde  
Blogger André Carita said...

Ainda não vi o filme Fanscisco (falta de tempo e muito trabalho!). Contudo venho dar-te os parabéns pela excelente crítica introdutória. Tantas verdades em tão poucas linhas. Tanta coisa que se poderia acrescentar naquilo que foi dito. Dói muito! Dói estar sem ir ao cinema à meses. Dói por vivermos longe da capital e sermos constantemente tratados de maneira diferente.

A tua introdução poderá muito bem ser alargada aos outros eventos (musicais, teatrais, exposições, etc, etc, etc, ...), mas sobre esta matéria prefiro não comentar para não me tornar repetitivo!

Portugal não é Lisboa!!

Um abraço nortenho!

5:05 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Carlos: Totalmente de acordo.

André: É uma situação bastante penosa que tarda em ser sanada...

8:21 da manhã  
Anonymous Ricardo said...

Compreendo-te na perfeição... Estamos completamente voltados para o dinheiro fácil. Há-que convir... um date movie é dinheiro garantido.

12:02 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

A educação cultural da maioria da nossa população é de uma mediocridade atroz... Infelizmente...

12:52 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

Francisco, concordo plenamente contigo quanto ao acesso à cultura... É tal que eu chego ao cúmulo de recorrer à pirataria. Sim, este Hot Fuzz vi-o em Divx directamente sacado da mula (qualidade excelente):P Talvez por perder este encanto num monitor de casa, não aderi completamente ao espírito do filme. Adorei a edição, achei as piadas razoáveis mas a acção explosiva foi demasiado 'Holywoodesca'. Por mim ou filmavam satirizando o género (tal como o fizeram em Shaun of the dead, matando zombies de forma peculiar) ou tentavam não esticar na pirotecnia. Acabei o filme com um gosto amargo na boca, por achar que fui enganado na última meia hora.

Fora isto, vou esperar pelo próximo projecto destes "cromos", quem sabe com um género romântico, ehehehh!

Abraço!

11:40 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

O "Shaun of the Dead" já tem o seu quê de romântico (Rom-Zom-Com)... ;)

Compreendo o gosto que os minutos finais te tenham proporcionado, mas até nesse capítulo vibrei com o raio de alcance da sátira.

Abraço!

11:45 da manhã  
Blogger wasted blues said...

Tenho ouvido falar tanto disto, mas não sei, não costuma ser o meu género...

3:19 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Sim, é tudo uma questão de gostos. Mas "Hot Fuzz" é bom... muito bom!

3:30 da tarde  

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