quarta-feira, setembro 07, 2005

“Wedding Crashers”, de David Dobkin

Class.:

“You know how they say we only use 10% of our brains? I think we only use 10% of our hearts” (John Beckwith)
Alguma mente generosa (ou não…) pensou: porque não pegar nos ingredientes que os rapazes apreciam numa comédia (lascívia, profanidades e uns belos pares de seios) e combiná-los com as iguarias apreciadas pelas raparigas (romance, ternura e elegantes patifes)?
Numa altura em que tantas comédias aparentam ser filtradas pela Inquisição, onde um grupo de Anciãos decide o que é melhor e mais engraçado para nós (público), “Wedding Crashers” é aquela rara comédia mainstream contemporânea, onde piadas apimentadas jorram despreocupadamente.

John Beckwith (Owen Wilson) e Jeremy Klein (Vince Vaughn) são “fura-casamentos” profissionais, ou seja, irrompem pelas festividades sem convite e cativam todos, desde os idosos até aos mais jovens. É tudo uma enorme charada, pois a menor afabilidade perpetuada por John e Jeremy é engendrada para ceifar as amarras dos corações indefesos de jovens moçoilas. Estes desavergonhados executam os seus desígnios com uma destreza equiparada a um brilhante músico quando toca piano num coliseu, perante uma requintada plateia.

Owen Wilson e Vince Vaughn exibem uma genial química instintiva, levando o argumento a elevados patamares hilariantes. É uma das melhores duplas dos últimos tempos no Cinema e logo nas cenas iniciais começam a propagar sonoras gargalhadas pela assistência. Estes dois nasceram para formar um duo dinâmico na comédia e “Wedding Crashers” é o veículo apropriado para explanarem o seu talento. O ritmo de comicidade empreendido pelo duo é infernal e apesar do carácter doidivanas e machista, também despertam afinidades no público pelas suas personagens. Sendo assim, apesar do filme iniciar como uma obscena e vulgar comédia sexual, o par de protagonistas vai desbravando caminho em direcção ao coração da plateia, gerando uma empatia.

Owen é o lacónico charmoso com olhar de cachorrinho e Vaughn o devasso repleto de esquemas sarcásticos. Vince Vaughn arrebata com a sua endiabrada energia. A boca deste inspirado maníaco dispara impropérios tóxicos como uma metralhadora linguística sem escrúpulos. Com este actor, o sexismo, chauvinismo e insolência tornam-se Arte. A sua épica imoralidade conduz o filme numa rota hilariante. Se a Academia tivesse a categoria de Melhor Interpretação Cómica, Vaughn não merecia um pequeno rapaz dourado… ele merecia um Oscar à escala do Colosso de Rodes.
Christopher Walken é sempre benvindo graças à sua bizarra presença, Jane Seymour atravessa uma espécie de idade da “Loba”, Isla Fischer é bastante activa no papel de ninfomaníaca e outra agradável surpresa é a liberdade cómica oferecida às senhoras, em vez de as relegar para simples objectos com o intuito de fortalecerem o gracejo dos rapazolas. Rachel McAdams é portadora de um irritante sorriso à Jennifer Garner. Mesmo nos momentos mais sérios a rapariga tem um sorriso estampado na face, funcionando como o equivalente feminino para Tom Cruise. Todavia ela derrama sensualidade no papel de rapariga divertida e inteligente. Fica por comprovar a sua versatilidade e talento já na próxima semana, em “Red Eye” de Wes Craven.



O argumento de Steve Faber e Bob Fisher cola em demasia a uma estrutura cliché do género (“Animal House”, “Porky’s”, “American Pie”, “Old School”, “Something About Mary”) e fica-se com a sensação de Dobkin temer ir mais além, ficando pela trajectória pré-determinada. O filme mostra arrojo nas piadas que profere, mas exibe pouca desenvoltura quando introduz o drama na equação, subtraindo um pouco a qualidade de “Wedding Crashers”.

Apesar da improvisação de Vaughn e Wilson camuflar um pouco a previsibilidade, “Wedding Crashers” começa a enfastiar no terceiro acto. A película não morre no final, mas numa comédia deste calibre torna-se injustificável terem procurado arrastá-la lentamente para uma óbvia conclusão. Finais previsíveis poderão ser aceites se a jornada for agradável, mas Dobkin alonga demasiado o desfecho. Simula a atitude do conviva de um casamento, que sabe entreter mas não faz a menor ideia de quando abandonar a festa. Contudo, mesmo nesta fase desfalecida ainda se vislumbram algumas ideias inteligentes e jocosas.

“Wedding Crashers” concede ainda uma aparição misteriosa, que fará as delícias aos fãs do género. Existe um novo fenómeno nas comédias: uma comunidade de cómicos consagrados decide ir surgindo nos filmes dos amigos. Eles desprezam o tamanho do papel e do salário, actuando pelo simples gozo que a sua profissão lhes abona. Esta é uma atitude de louvar.

A quantidade de boas gargalhadas anda a escassear tanto, que muitos dirão que o hype gerado em torno deste filme se poderá comparar a um Hamburger ter o mesmo sabor que Picanha para uma pessoa esfomeada. É verdade que o filme não é portador de ingredientes frescos e requintados, mas sacia devidamente o apetite.
“Wedding Crashers” detém dois cómicos apaixonados pelo trabalho e laborando a tempo inteiro, contém um bom quinhão de material profano e um coração batendo docemente no seu âmago, para satisfazer toda a gente. É uma óptima forma de passar um bom, alegre e relaxado serão. É bem verdade que não abundam boas comédias neste ano cinematográfico, mas um bom filme também adquire o estatuto de memorável, graças ao impacto que regista na época do seu lançamento. “Wedding Crashers” fura o semblante mais sisudo da plateia.

35 Comments:

Anonymous miguel baptista said...

Eu cá gosto bastante de comédias, e não perco oportunidades para vê-las. Este Wedding Crashers vai ser alvo de um visionamento da minha parte, já que tem tudo para me fazer rir, desde Vince Vaughn (que é como diz Peter LaFleur, não sei se já viste o Dodgeball, Francisco), a Owen Wilson (o famoso padre que casou a dupla Ben Stiller e Teri Polo).
Abraço!

9:29 da manhã  
Blogger Knoxville said...

Eu cá este também não me vai escapar, apesar de já não ir muito com a cara do Owen Wilson.

Mas foi geralmente bem aceite pela critica e portanto, here i go!

Abraços Katateh!
Matateh!

10:15 da manhã  
Blogger Coutinho77 said...

Pelo que dizes e pelo que tenho visto, nomeadamente no jay leno e no conan o'brien, existe uma enorme dinâmica entre estes dois wedding crashers. Só isso é suficiente para eu ir dar uma espreitadela a este filme.
Abraço!

10:17 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

migueL: Sim, conheço e adorei "Dodgeball". Vaughn é um dos meus actores preferidos no universo da comédia. Wilson tem um tremendo talento, até na escrita colaborando com o excelente autor Wes Anderson. Este "Wedding Crashers" irá certamente satisfazer-te.
Em relação à comédia, aguardo ansioso pela estreia de "The 40 Year Old Virgin".
Abraço!

Knoxville: Passei um belo momento com este filme. E Wilson continua a convencer-me.
Abraço Matateh!

coutinho: É uma das melhores duplas dos últimos anos. A química atinge píncaros de perfeição e a improvisação é fabulosa.
Abraço!

10:27 da manhã  
Anonymous André Batista said...

Vou fazer de tudo para não perder este filme! Acho que genuinamente cómico, e tem um belo leque de actores. Acho que este é daqueles filmes que me vai surpreender bastante!

Como sempre, escreveste uma excelente análise! See ya!

10:57 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Obrigado!
Não percas este filme. Irás soltar muitas gargalhadas.

11:05 da manhã  
Blogger Ne-To said...

Pois é foi uma agradável surpresa. O vince é muito à frente :D

Uma das coisas que este filme tem o mérito é o facto de à saída da sala TODAS as pessoas levavam um sorrso no rosto e ainda recordavam momentos destes dois amigos.

É longo demais, mas nada que umas longas gargalhadas que nos levam a bater no peito com a falta de ar, não nos faça esquecer :D

cumps

11:21 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Exactamente NeTo, a boa disposição imperou. Um conjunto de belas chalaças!

Cumps.

11:41 da manhã  
Blogger Knoxville said...

Mas o filme não estreia só dia 15 de Setembro? Ia agora ao Alvaláxia atrás do filme e não o encontro.

Em que raio de sala é que vocês encontraram isto?

1:28 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

LOL
Knox, vi-o ontém numa ante-estreia... :P
Pelos vistos vais ter de aguardar mais um bocado... ;)

1:53 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

Estou em pulgas par o ir ver! Esta minha cabeça precisa de um bom par de gargalhadas para relaxar... Desde que vi John Knoxville no Jackass que caiu nas minhas boas graças. É enorme!!

2:53 da tarde  
Anonymous André Carita said...

Aí está uma bela comédia que de certeza vou ter que ver! :)
O último filme no qual soltei grandes gargalhadas foi no "Charlie and The Chocolate Factory" que achei simplesmente divinal. Neste espero claro uma comédia diferente, mas também com grande impacto!
Um grande abraço!

3:27 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

brain-mixer: Não confundas o Vince Vaughn com o Johnny Knoxville! ;)

André Carita: E não percas igualmente no final deste mês "The 40 Year Old Virgin", com Steve Carell... um dos membros do "Daily Show" do Jon Stewart. Promete!!
Grande Abraço!

3:40 da tarde  
Blogger Gustavo H.R. said...

Sou um rapaz, mas não aprecio filmes lascivos. Vou passar esse. Posso rir comigo mesmo.

3:49 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

Urg!!! eles trocam-me as voltas!!! É que tanto um como o outro são dois malucos da tola, eh eh!

4:00 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Gustavo: Escrevi de uma forma caricaturada e adaptei a crítica a este formato pois os filmes cómicos em si também funcionam como caricatura.
Também posso rir comigo mesmo, mas não sou assim tão egocêntrico para ignorar os outros.

brain: ;)

4:02 da tarde  
Anonymous Walter Sousa said...

De onde sacaste Wedding Crashers, Francisco Mendes? Foi a versão CAM do Emule? Já existe algum DVDRip do filme? Que o sacaste de algum lado, isso é quase óbvio. Gostaria bastante que me dissesses de onde. :-)

6:41 da tarde  
Anonymous Rodrigo - Digao93 said...

Tão falando muito bem desse filme, mas tenho monhas desconfianças. Talvez eu vá ver.

6:52 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

walter sousa: Não sei se estás a par de algo que se chama... como dizer... Ante-Estreia!
Vi o filme em Ante-Estreia no Lusomundo Dolce Vita no Porto. Aliás, ontém existiram diversos visionamentos espalhados pelo país fora. :P

Rodrigo: O filme diverte e espalha boas gargalhadas pela plateia. Recomendável.

7:11 da tarde  
Anonymous Walter Sousa said...

Nem todos temos a sorte de ir ver ante-estreias. Mas eu prefiro fazer algumas ante-estreias na minha casa, com um comando para fazer PAUSE do DvD de Dvix, sempre que me apeteça ir á casa de banho ou ir buscar alguma coisa para comer. Assim aconteceu com o The Descent que só estreia dia 22 de Setembro. Mas também vou ao cinema de vez em quando.

7:40 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Ando ansioso pelo novo filme do Neil Marshall, "The Descent". Até já falei aqui no blog sobre esse filme. É um autor que admiro bastante. Já falta pouco... Pela nota que lhe deste, ainda fico mais ansioso.
Cumprimentos.

8:06 da tarde  
Anonymous S0LO said...

Já vi, gostei e devo dizer que me surpreendeu pela positiva :)! Análise em breve.

Cumps. cinéfilos

10:47 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Welcome to the club. :)

Cumps.

7:52 da manhã  
Blogger brain-mixer said...

O Walter sousa é que a sabe toda!

9:48 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

LOL
Constato que chegámos à geração do divx. Isto não é apreciar cinema!
Se o vídeo era considerado a sombra de uma projecção cinematográfica, o divx deve ser um vulto. Enfim... é pena.

10:36 da manhã  
Blogger Ana Marques said...

Concordo contigo Francisco. Eu continuo a achar que um bom filme numa boa sala de cinema não consegue ser ultrapassado.
Em relação a pirataria de filmes nem faço comentários, acho ridículo, tira qualidade ao filme e não me venham dizer que os dvds estão muito caros.

12:51 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

A Ana é que a sabe toda.
Estamos em perfeita sintonia neste capítulo.

1:38 da tarde  
Anonymous Walter Sousa said...

Ninguém é menos apreciador de cinema por ver filmes no seu DVD, nem ninguém é menos adepto de futebol por ver uma partida no seu sofá em frente á TV. É tudo uma questão de comodidade e poupança de dinheiro. Há filmes que perdem bastante vistos num edrã de tv e outros em que não se perde nada.Em relação ao preço dos DVD, eu também compro DVD´s baratos, sobretudo passado mais de 1 ano do filme sair em edição DVD, sendo que nessa altura também já se predeu o efeito novidade.

9:07 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Uma experiência de Cinema é completamente diferente e superior ao visionamento de um reles divx, ou de um DVD. Um apreciador de Cinema, não relega para segundo plano uma ida à sala de Cinema.

Não confundir apreciador de Cinema, com apreciador de filmes... Ou na geração moderna: Apreciadores-de-PAUSE-e-pirataria-com-pedaços-de-imagens-desfocadas-misturadas-com-grunhidos-da-audiência... tudo em favor de incontinências de urina. A culpa não é só do público... a actualização cinéfila nacional é uma desgraça!

11:17 da tarde  
Blogger gonn1000 said...

Não achei nada de especial, é mais uma comédia rotineira, que apesar de se armar em irreverente não evita um desenlace politicamente correcto e americanado... Vê-se e esquece-se logo a seguir.

11:43 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Tal como referi o final é arrastado pesarosamente para um desfecho conjecturável. Agora se todas as comédias fossem "rotineiras" como esta, saíamos mais animados das salas de cinema.
E não pensávamos coisas do género: bem... se calhar as cenas apagadas do DVD são mais engraçadas.

11:53 da manhã  
Blogger brain-mixer said...

Ei ei EI, atenção: Eu não sou adepto do DivX rasca e podre!! Com legendas Tailandesas, desfoques e brancos totalmente queimados... Eu só admito alguma cópia pirata através de filmes originais ou daqueles exemplares dvd-screener (que mantêm a qualidade de um original). Mas é claro que só recorro a isto se vir que não posso ir ao cinema ou se há outras melhores escolhas. Para saberem, eu vou regularmente ao cinema entre 3 a 4 vezes por mês. Acho que estou bem, não?

Eu é que a sei toda! ;) LOL

4:29 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

É assim mesmo Brain... eheh :)

2:39 da tarde  
Blogger H. said...

a ver... talvez...
parece-me uma aposta boa se a intenção for passar um par de horas descontraídas e dar umas gargalhadas...
e o par de protagonistas é bom no género... («Be Cool» pode ter sido mau, mas Vince Vaughn estava em altas lá)

6:56 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Vince Vaughn é um portento da comédia!

10:18 da tarde  

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