quinta-feira, novembro 10, 2005

“The Constant Gardener”, de Fernando Meirelles

Class.:


As ervas daninhas que infestam certos jardins proibidos

O realizador Fernando Meirelles efectua novamente milagres visuais que repercutem com sentimento e emprega uma face humana no sofisticado romance de John le Carré. O escritor iluminou em 2001, as intrigas de um mundo gerido pela ganância de corporações e governos comprometidos, com o seu livro “The Constant Gardener”. Meirelles injecta o seu quinhão de energia, iluminando a adaptação com ressonância emocional e tensões temáticas.

Justin Quayle (Ralph Fiennes) é um pacato diplomata inglês que viaja para o Quénia com a sua esposa Tessa (Rachel Weisz). Num local remoto deste território, Tessa é brutalmente assassinada e o seu companheiro de viagem, um activista local, desaparece. Tudo indica tratar-se de um crime passional e o Alto Comissariado Britânico em Nairobi assume que o seu colega Justin deixará a resolução do mistério ao seu encargo. Mas perseguido pelo remorso, Justin surpreende tudo e todos embarcando numa odisseia pessoal para desvendar e expor a verdade, que o conduzirá a uma funesta intriga.

Meirelles semeia uma extensão de vilões ao longo do filme, cada um possuidor de uma sinistra natureza e representado os pilares do mal que ele deseja expor. Mas “The Constant Gardener” é a história do amor entre um homem e um fantasma, na qual Ralph Fiennes e Rachel Weisz perpetuam um bailado primoroso. Weisz é vertiginosa no seu papel mais rico até ao momento e Fiennes desempenha o seu relutante herói num crescendo idêntico a uma tormenta refreada, explodindo em ondas de raiva à medida que a passividade deixa de ser uma opção. É com o despertar da personagem de Fiennes que o filme transcende a sua premissa política.



“The Constant Gardener” ostenta apreensão e desconforto pelas actividades pós-coloniais em África. Meirelles oferta um brilhante filme que demonstra de forma caustica as infames explorações realizadas nos países do Terceiro Mundo, bem como medita na natureza da confiança. Captura de forma perfeita as políticas caóticas contemporâneas e demonstra como, mesmo no canto mais deteriorado do planeta, alguns seres encontram algo para explorar. É um thriller que foge aos chavões do género e deixa a audiência reflectindo sobre qual o seu real conhecimento do mundo que a rodeia, bem como das pessoas que amamos.
Em “Cidade de Deus”, Fernando Meirelles filmava imaculadamente as favelas do rio, em “The Constant Gardener” filma a pobreza dos bairros pobres de Nairobi. Ele apresenta uma África, alheia aos cartazes das agências de turismo sobre o Quénia. Meirelles estampa o seu cunho na obra de le Carré e a fotografia de César Charlone irradia imagens de profunda destituição, perscrutando a nossa confortável distância relativamente à degradação do bairro de Kibera.
“The Constant Gardener” é uma portentosa obra lírica, com uma exímia banda sonora de Alberto Iglesias, uma fotografia impressionista de César Charlone e interpretações topo de gama. Fernando Meirelles assevera a sua tremenda virtuosidade como realizador. O seu estilo de filmagem guerrilha, captura a urgência hipnótica da ficção de le Carré com um sublime sentido de espaço e cor. A sua dinâmica propulsiva abona uma urgência orgânica ímpar. Meirelles arrancou as convencionais ervas daninhas dos filmes do género e plantou mais uma Obra ornamental no seu Jardim contemplativo.

17 Comments:

Anonymous S0LO said...

Este filme promete muito...neste fim de semana vou ver se cumpre =).

Abraço

9:00 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Pessoalmente considero-o um dos melhores do ano.
Abraço!

10:18 da manhã  
Anonymous André Batista said...

Um dos melhores do ano !! 5 estrelas :P Cumps

5:10 da tarde  
Anonymous André Carita said...

A ver sem dúvida. Mais um dos já muitos que tenho na lista para ver!
Um abraço!

5:13 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

André Batista: Sim, sim... sem dúvida...

André Carita: Andas a acumular filmes em demasia ou é impressão minha? :P
Abraço!

5:33 da tarde  
Blogger Ana Marques said...

Também ainda não vi mas este fim de semana não deve escapar. Pelo que já li é muito bom, espero que assim seja.

9:07 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Podes esperar um filme maravilhoso.

10:27 da manhã  
Anonymous Pedro Ginja said...

Eu já vi o filme.
Gostei bastante mas tenho uma pergunta a fazer.

No fim do filme e durante custou-me um pouco a assistir aos movimentos de câmara. Fiquei com a vista cansada e um pouco de dôr de cabeça.
Foi geral ou fui mesmo só eu??

Ps: É verdade que antes do filme começar estava quase a dormir mas...

12:30 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Não senti nada disso...
Esse tipo de filmagem faz parte o estilo guerrilha de Meirelles, numa sublime deconstrução pictórica. A própria personagem de Fiennes anda abalada.

1:21 da tarde  
Anonymous André Carita said...

Francisco, a minha lista de filmes é sempre enorme... ás vezes ainda vejo as novidades mas não falo sobre elas no blog... gosto mais de falar sobre filmes mais antigos que vou vendo... mas para satisfazer a tua curiosidade, o último filme que vi no cinema foi, e se a memória não me falha, o Charlie and the Chocolate Factory... :P
Um abraço!

12:12 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Isso já foi há um bom tempinho, não? ;P
Abraço!

8:05 da manhã  
Blogger H. said...

Gostei de ler... e do filme, claro!
E concordo com tudo, desde a classificação até à constantação da qualidade ímpar que Rachel Weisz mostra neste filme.
É óptimo ainda se fazerem filmes destes, que alertam com arte para problemas contemporâneos,para essa "África, alheia aos cartazes das agências de turismo"...
É uma proposta imperdível neste ano.

8:17 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Existem poucos realizadores a conseguirem alcançar um filme excelente... e Meirelles já conseguiu dois! É uma obra poética que instiga cogitações sobre um malogrado canto do planeta.

8:35 da manhã  
Blogger O Puto said...

Um belo filme! Gostei muito do dipolo romance/intriga sob a lente de Meirelles, bem como dos seus exercícios de estilo. O seu dinamismo transporta-nos para todos os cenários. Tem algumas remanescências de "Cidade de Deus", mas é um filme com identidade própria forte. E comove.

12:48 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Meirelles é um cineasta bastante talentoso, com um lirismo particular.

2:06 da tarde  
Blogger gonn1000 said...

Gostei, mas não é um portento de energia como "Cidade de Deus". Em todo o caso, é dos melhores filmes em cartaz.

9:41 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Têm as suas características muito próprias.

1:07 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home

Site Meter