sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Escoltar "Stalker"


O cão negro como alegoria do diabo.
Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais o diabo se aproxima de nós.


Ninguém sabe explicar o misterioso advento de uma nova Zona no nosso globo. Será efeito de um meteorito ou experiência alienígena? Casas abandonadas, tanques enferrujados e cobertos pela vegetação testemunham silenciosos aqueles que tentaram desvendar o segredo pela força. Apesar do perigo do isolamento decretado pelo governo, muitos tentam entrar, pois acreditam que lá encontrarão um local, uma câmara onde todos os desejos são concedidos. Somente alguns marginais conhecidos como Stalkers, sabem evitar as armadilhas espalhadas por todos os lados e penetrar nesta Zona. Um Stalker guia um cientista e um escritor que pretendem desvendar o mistério. Durante esses labirintos, nos quais se move e parece agir, avaliando, indicando e ousando, terá de enfrentar enormes provações. Será que a sua eficácia depende da fé? Enquanto seus companheiros esgrimem argumentos numa eloquência articulada, Stalker balbucia e rebenta em prantos. Ele consegue senti-la, como uma cicatriz que flagela o corpo ou, como algo muito menos superficial.

A preocupação primordial da obra de Andrey Tarkovsky é deambular pelo tempo, exigindo um nível de atenção absolutamente incompatível com a placidez do Cinema comercial. Seu Cinema apresenta um carácter introspectivo, complexo, preciso e profundo, onde questões humanas são sempre colocadas em primeiro plano. Poucos cineastas tomaram uma posição tão dramática pela espiritualidade humana como Tarkovsky. Numa era onde o Cinema evapora de uma caldeira asquerosa de trivialidade cinicamente luxuosa, onde relações humanas se reduzem a artificiosas intrigas sexuais, este cineasta ostenta a sombra de um guerreiro solitário no centro de um apocalipse cinematográfico. E este guerreiro chegou mesmo a ofertar a vida em sacrifício pela sua paixão, pois filmado em parte na Estónia, em instalações radioactivamente contaminadas, “Stalker” terá contribuído para o surgimento do cancro que o levou deste mundo em Dezembro de 1986. Repleto de planos-sequência, embarcamos numa digressão visual que acciona uma excursão interior pelos ramais existenciais. Tarkovsky sempre demonstrou minúcia com processos, desde fogo, brisa, água fluindo e até com o Sol despontando num plano assombroso de “Nostalghia”. Os movimentos de câmara são lentos, propositadamente prolongados para não perturbarem a beleza da imagem projectada. A voz é escassa, e quando irrompe não significa propriamente um diálogo, mas um monólogo. Em “Stalker” cada um fala consigo mesmo sem esperar resposta, numa narrativa metafísica submersa num detalhe que espelha normas da consciência humana: subjectividade, sapiência e assimilação da relação entre o ser humano e o ambiente. Através da acumulação de valores simbólicos (cientista representando a Ciência e escritor personificando a Arte) de alguns agentes do alquebrado corpo social, Tarkovsky demonstra visualmente que o desfecho de uma colisão com divergências desta magnitude, só pode resultar em sujidade e destruição. Mas “Stalker” não é um filme sobre a morte. Existe um manifesto compromisso com a vida. O microcosmos pincelado é moribundo, mas uma vez que a matéria é constantemente sacudida pela brisa ou por impulsos semelhantes aos que activam o ciclo da água, então das ruínas será reedificada a vida.

Sinto-me triste. Ainda não será desta que irei contemplar esta obra numa tela de Cinema. Na retrospectiva do Cinema Russo que o Fantas do presente ano oferta, apenas marcam presença as suas obras (igualmente notáveis) “Andrey Rublyov” e “Zerkalo”. A câmara do mestre russo testa a realidade das pessoas e das paisagens que apreende. Uma realidade conspurcada, debilitada, desfeada, decadente. Seus universos demonstram decomposição numa densidade prodigiosa, encorajando o olho humano a servir a mente e a alma, escavando camadas imagéticas ilimitadas. Apenas a experiência de uma projecção na tela ebúrnea, ilumina na plenitude a razão pela qual Andrey Tarkovsky é um dos excelsos exploradores da Sétima Arte.


P.S.: Estimados leitores, colegas e amigos, vemo-nos por aqui na próxima quarta-feira. Irei aproveitar para sorver os prazeres de um fim-de-semana prolongado.
E para todos os amantes da Sétima Arte, convém relembrar como o compromisso de Tarkovsky com a Arte também ficou imortalizado no seu livro “Esculpir o Tempo”. Revisitem. Descubram. É uma obra essencial para quem pensa, respira, expira, sente, contempla e vive Cinema.

5 Comments:

Blogger H. said...

Um cineasta que sinto urgente descobrir. Primeiramente por Andrey Rublyov, o que será muito brevemente :)
Votos de um delicioso fim-de-semana grande e bom Carnaval!

10:48 da tarde  
Blogger mig_domingues said...

Um dos meus favoritos de sempre.

12:49 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Helena: "Andrey Rublyov" é outro objecto de devoção, mas visita igualmente este "Stalker". Tarkovsky é Santo de paragem obrigatória na peregrinação pelo santuário da Sétima Arte.

Miguel Domingues: Já somos dois.

8:27 da manhã  
Blogger Tiago Costa said...

Vi-o ontem pela primeira vez. Magistral.

6:56 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

É daquelas obras que passa a viver connosco.

9:51 da manhã  

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