sábado, fevereiro 03, 2007

Freeze Frame



Numa semana que marca a estreia em salas nacionais de “Little Children”, nada como recordar um dos meus Filmes de Altar de Ang Lee, intitulado “The Ice Storm”. Os paralelos cunham a sua presença na exploração dos subúrbios, no exame da dinâmica instável da família num mundo volúvel. São contos do galope etário, do desenvolvimento dos progenitores provocando fissuras colaterais nos filhos, sugerindo que a idade nem sempre equipara o padrão da percepção. O filme de Lee é imaculável na sua magistralidade silenciosa. O homem vem de Taiwan e consegue retratar a sociedade americana da época do Watergate melhor que os próprios nativos, numa lição de ritmo, cumplicidade espectador-filme, direcção de elenco e noções de argumento. Argumento esse, pujante e mordaz, que arrasta o espectador num turbilhão emocional, num congelamento de trocas afectivas. Criador exímio de vívidos sentidos de espaço, Lee isola as suas personagens numa tempestade de gelo, focando a atenção na gélida deterioração dos Hoods e dos Carvers, abalando taboos sociais numa desconstrução moral da perseguição de nexos e satisfações existenciais. À medida que as famílias se vão liquefazendo dos adultérios paternos e dos ensaios sexuais juvenis, existem subtis comutações entre farsa sexual, drama adolescente e tragédia pungente, enquanto o Inverno glacial espelha o esfriamento emotivo e correspondente devastação familiar. “The Ice Storm” é o dissecar lancinante do frio anímico que se apodera de quotidianos de conforto e rotina. Para quê aguardar complacente por uma tempestade exterior que nos deixa o interior combalido? Porque não quebrar o gelo por conta própria?

10 Comments:

Anonymous Inês Mendes said...

adorei o blog * Parabéns

12:21 da tarde  
Blogger RPM said...

"O homem vem de Taiwan e consegue retratar a sociedade americana da época do Watergate melhor que os próprios nativos(...)".

Mas óh camarada...tu sabes e sabemos bem que os Americanos têm menos liberdade que os Europeus...e quanto à informação que por lá se passa???? muito de acordo com a nomenklatura...

por isso não é de estranhar esta tua afirmação....

abraço com chuva? aqui cai torrencialmente...

abraço e bjito à Ninfa, de amizade claro!

RPM

12:35 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Inês Mendes: Obrigado!

Rui: Pois quanto a mim, mais do que coragem ou criatividade nos desvios manipulativos, o crucial é existir um argumento bravo. E neste aspecto, Rick Moody é sublime e Lee irrepreensível na edificação desta Obra de Arte.

Abraço e bom fim-de-semana, estimado amigo!

2:43 da tarde  
Blogger brain-mixer said...

Ainda não vi... Estou para descobrir como o irei ver, não se encontra no meu clube vídeo e nem na TV tenho oportunidade :S

3:26 da tarde  
Blogger Coutinho77 said...

Grande filme sem duvida. Kevin Kline sublime na sua representação de tudo o que existe de podre numa pessoa que afinal tem algo lá dentro.
Abraço!

3:42 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Edgar: Este é daqueles imprescindíveis numa colecção pessoal. :)

Coutinho: Os desempenhos são uniformemente portentosos e memoráveis.
Abraço!

4:37 da tarde  
Anonymous H. said...

Belíssimo texto sobre um grande filme, que no meu caso necessita de um revisionamento para recordar algumas coisas. Por acaso nem me lembrei deste filme quando pensei em similaridades de outras obras com o Little Children, mas é um exemplo muito bom mesmo.

6:29 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

A magia cinematográfica de Ang Lee deixa-me pasmado. Quão profunda poderá ser uma história simples?

8:43 da manhã  
Blogger wasted blues said...

É, há anos, o meu filme preferido de Ang Lee!

Claro que já está na minha colecção, mas não esperei pela edição nacional. Quando essa chegou, já eu tinha visto e até revisto o filme na minha edição R1 ;)

5:41 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Bem-vinda ao clube. ;)

9:46 da manhã  

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