sábado, agosto 26, 2006

"O" final




The Last Waltz, de Jo Yeong-wook (“OldBoy”)

Existe um filme que coabita na minha essência há mais de um ano. Não… não se encontra somente alojado numa ramificação da minha memória. Revolve-me o âmago, amotina-me num patamar intangível, fraccionando o real do místico. “OldBoy” de Park Chan-wook, foca-se num poderoso ensaio sobre a vingança, imbuindo repressões psicológicas no pano de fundo de uma sociedade coreana (e porque não universal) iníqua. Examinando a raiz do pecado ao ritmo de uma Tragédia Grega ou Shakespeareana, o virtuosismo de Park aprofunda a ambiguidade do espírito humano e respectiva fragilidade quando corrompido pelos danos inerentes ao sentimento de perda e subsequente desejo de vingança, numa peculiar mescla de mel e fel, de beleza e abominação, de amor e horror. É uma Obra de Arte que explora de forma vibrante a condição humana.

Elevando a sua poderosa vertente ambígua para um patamar olímpico, encontra-se a magistral conclusão do filme. A partir do momento em que Dae-su abre a caixa misteriosa, o filme explode em ondas de simbolismo. Após a fatídica revelação, a sua revolta é exclusivamente montada com planos de vidros estilhaçados, numa exímia alusão à dissolvência da sua alma. Ao longo do filme existe um mantra ao qual Dae-su recorre nos momentos de desespero: «Ri… e o mundo rirá contigo. Chora… e chorarás sozinho». Se existem imagens que valem mais que mil palavras, a imagem final de “OldBoy” é um dos exemplos supremos. Matizada numa beleza assoladora, o retrato ressoa os conflitos emocionais de Dae-su, através da ambiguidade espelhada no seu rosto. «Amo-te… Oh Dae-su…», sussurra Mi-do aninhando-se nos braços de Dae-su. Escutamos a faixa The Last Waltz de Jo Yeong-wook irrompendo em ondas melodiosas que enlevam o momento dramático, enquanto visionamos algo a ser accionado na consciência de Dae-su. O sorriso inicial como resposta emocional à declaração de Mi-do, depressa se transforma num carpido silenciosamente angustiante. É nestes trilhos humanos que Park Chan-wook nos transporta, numa expedição aos becos escuros da condição humana, enquanto nos provoca comoção veemente, riso genuíno e choro sentido. Sob a hipnótica camada barroca de Park, jazem poderosos receptáculos emocionais.

12 Comments:

Blogger sabr said...

Hum...vou pelo teu texto...bom fim de semana, abraço.

10:25 da manhã  
Blogger A Terapeuta said...

Oh Francisco, mas que belo filme! Um dos melhores filmes que visionei.
Que explosão de emoções que me proporcionou.

E foi uma óptima ideia teres colocado a faixa final que é belíssima.

10:34 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

sabr: Bom fim-de-semana.
Abraço!

Alice: A composição de Jo Yeong-wook é toda ela memorável, com uma inclusão perfeita do trecho Winter da The Four Seasons de Vivaldi.

Quanto ao filme... pouco mais há a dizer. Apenas confesso que é o meu filme da década. Vive em mim. Vive comigo.

10:48 da manhã  
Blogger André Carita said...

Uma Obra-Prima notável! Um dos melhores filmes que visionei e que me deixou curioso em visionar as restantes obras deste realizador (a começar pelos restantes da trilogia)!
Todas as cenas deste filme são memoráveis.. o final é simplesmente a cereja no topo de um bolo tão doce que ainda hoje me deixa a ansiar por mais!

Um abraço!

7:47 da tarde  
Blogger H. said...

Esse filme é deveras perturbador. E esse final de uma beleza arrepiante. As tuas palavras parecem captá-lo de forma tocante!

3:04 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

André Carita: A construção da cena do suicídio de Woo-jin é igualmente impressionante, neste final avassalador.

Abraço!

Helena: O filme é executado com uma mestria singular e o final remata-o de maneira sublime. Park atingiu a imortalidade com este filme, que apenas tende a crescer com o decorrer dos anos.

12:34 da tarde  
Blogger Pedro_Ginja said...

Ok, é um bom filme.

Disso não há grande dúvida é praticamente consensual.

E como sempre as tuas palavras falam, respiram e vivem por si.
Mesmo que não gostasse do filme passaria a gostar com uma elegia dessa qualidade.

Mas...
Há sempre um mas, obra-prima????

Para isso, pelo menos para mim gosto de esperar uns anos para ver como envelhece o filme. É que existem uns que ao fim de alguns anos já cheiram a ranço.
E além disso, para ser um realizador notável necessita de abranger os temas dos seus filmes para outra coisa sem ser vingança. Um grande realizador filma qualquer história e não apenas de vingança.

Mas antes que me batas só quero dizer que este filme está nos melhores de 2005 para mim por isso não batas no ceguinho. E com um 9/10. Nada mau...

3:33 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Dizer que Park só filma vingança é ser imensamente redutor. Basta considerar uma das suas primeiras obras: "Joint Security Area", um retrato psicológico sublime da divisão entre o Norte e o Sul da Coreia. E mesmo "OldBoy" não é apenas sobre vingança, pois o seu epicentro temático expande para outros itinerários.

Quanto ao epíteto de Obra-Prima, lá está, parte da experiência de cada espectador etiquetar um filme conforme o impacto supra-pessoal. Mas se desejares pensar de forma global, basta verificar o quanto cresceu em culto neste curto espaço de tempo. É daquelas raras Obras que cresce à medida que é revisitada.

Abraço!

6:10 da tarde  
Blogger cine-asia said...

Comprei o dvd edição de coleccionador por uns míseros 10 euros na FNAC. tem lá tudo e a um preço bem recomendável.

Abraços

Sérgio Lopes

3:38 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Também eu! É uma bela pechincha.

Abraço!

3:50 da tarde  
Blogger Gonçalo Trindade said...

O filme é, realmente, uma verdadeira obra-prima. Park Chan-Wook é sem dúvida o melhor realizador da sua geração, e um dos melhores de sempre.

A banda-sonora do Oldboy é brilhante, é interessante ver a forma como o realizador deu o título de um filme a cada faixa.

Toda a trilogia é, de facto, brilhante.

1:07 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Um ensaio cinematográfico memorável.

2:07 da tarde  

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